segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Psicoterapias, "novas" e alternativas

   Psicologia da Saúde / Medicina (Klimt (1862 - 1918) 

Este blog, como devem ter notado, está dividido em três partes, além desta destinada ao estudo e avaliação de hábitos associados à conservação e recuperação da saúde e seus determinantes, abrange estudo sobre acupuntura enquanto ciência e profissão e também se estende na avaliação de outros sistemas etnomédicos, especialmente os que utilizam psicofármacos ou substancia psicoativas com atenção especial às pesquisas sobre a utilização da ayahuasca. (Paulo Pedro P. R. da Costa)

No presente texto tentaremos sumariamente analisar a concepção de psicoterapia por constatar que esta atividade tanto está associada às práticas da psicologia clínica e psiquiatra no âmbito da medicina cosmopolita e hegemônica como em outras profissões que integram os serviços de saúde, a exemplo da fisioterapia, enfermagem de saúde mental, assistência social. Observe-se também que a psicoterapia, mais recentemente, vem sendo adotada por terapeutas e integrada às medicinas alternativas ou praticas integrativas e complementares, com muitas das quais a psicologia mantém um diálogo de influência mútua.

 A Psicoterapia segundo o Conselho Federal de Psicologia – CFP ...é prática do psicólogo por se constituir, técnica e conceitualmente, um processo científico de compreensão, análise e intervenção que se realiza através da aplicação sistematizada e controlada de métodos e técnicas psicológicas reconhecidos pela ciência, pela prática e pela ética profissional, promovendo a saúde mental e propiciando condições para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de indivíduos ou grupos... (Resolução CFP nº 10/00, de 20 de dezembro de 2000) [1]

Ainda segundo o  CFP, o  psicólogo atua na área específica da saúde, colaborando para a compreensão dos processos intra e interpessoais, utilizando enfoque preventivo ou curativo, isoladamente ou em equipe multiprofissional em instituições formais e informais. Realiza pesquisa, diagnóstico, acompanhamento psicológico, e intervenção psicoterápica individual ou em grupo, através de diferentes abordagens teóricas. [2]

Apesar do termo psicoterapia ter sido utilizado pela primeira vez em 1872, por um médico inglês, Daniel H. Tuke (1827-1895) no seu “Manual of Psychological Medicine” (1858), a palavra psicoterapia como tal, generalizou-se no vocabulário clínico. Roudinesco e Plon assinalam que a partir de 1891, quando Hippolyte Bernheim publicou “Hipnotismo, sugestão e psicoterapia”, (1891) seguido de outros expoentes na explicação e indicação da hipnose. Assinala também que historicamente a psicoterapia nasceu, ao mesmo tempo, do antigo “tratamento moral”, cuja proposição inicial pode ser atribuída ao alienista francês Philippe Pinel (1745-1826), autor do "Traité médico-philosophique sur l’aliénation mentale ou la manie" (1801), livro também considerado um marco no surgimento da psiquiatria. (Álvarez et al p.68) [3] [4]

Sigmund Freud (1856-1939), em um texto publicado em 1890 sobre o “tratamento psíquico” destaca que o além da palavra ser a ferramenta essencial do tratamento anímico (ou psíquico) não se limita ao tratamento dos fenômenos patológicos da vida anímica. Segundo ele “tratamento psíquico” quer dizer tratamento que parte, tem origem na alma, - tratamento de distúrbios anímicos ou físicos, como os meios com que se atua sobre o anímico ou psique. [5]

Atualmente já se sabe que o conceito de sofrimento e cura na psicanálise não se confunde com a concepção médica, abrangendo a relação do paciente consigo mesmo e com as pessoas com quem convive, ou a condição psicossocial do sujeito. A psicoterapia refere-se a um método de tratamento psicológico exercido por um profissional treinado para tal, que tem por objetivo auxiliar as pessoas a lidarem de forma mais saudável com suas dificuldades e sofrimentos (Roudinesco & Plon, 1998), os quais podem ser vivenciados e manifestados de diferentes formas, tanto física quanto emocional (Kaplan, 1998). [3] [6]

Jacques-Alain Miller ressalta que mais do que a psicanálise ser classificada como uma forma de psicoterapia, do grupo das logoterapias ou terapias da linguagem, observa que esta não deve ser considerada como um domínio excludente e sim como um campo de interseção, naturalmente ambas possuindo áreas exclusivas tanto no campo freudiano como em algumas outras formas da psicoterapia. Distingue dessa área comum da psicoterapia e psicanálise as intervenções diretas sobre o cérebro, cirúrgicas, elétricas ou químicas, que segundo ele, estão fora do campo das psicoterapias. Incluindo neste último grupo mesmo as intervenções farmacoquímicas destinadas a modificar a consciência e algumas do grupo das terapias corporais [7] (p. 11-12)

Entre as intervenções sobre a realidade psíquica que caracteriza a psicoterapia inclui a técnicas que utilizam a ginástica e exercícios de dominação psíquica das funções e apetites somáticos, a  exemplo das fundamentadas na sabedoria oriental. Ressaltando que a essência da psicoterapia é a relação com o outro, a relação de identificação dominação/orientação exercida entre mestre/ discípulo, analista/ analisado, questionando a todo tempo os limites e possibilidade desse saber, e a importância da autodeterminação de cada um, mesmo em questões que envolvem a saúde e conservação da vida. Destaca que do ponto de vista da psicanálise, a psicoterapia  é um uso restrito dos efeitos analíticos, um subproduto, porque, o que a psicanálise se propõe é no máximo elucidar o desejo do sujeito, auxiliar a decifrar o que insiste na existência. O que é terapêutico na operação analítica é o desejo e por sorte (ou em um certo sentido, como descreve Miller), o desejo é a saúde. [7]

Segundo texto do Conselho Federal de psicologia na atualidade, existem mais de 250 modalidades distintas de psicoterapias (mais de setenta escolas de psicoterapia foram criadas a partir de 1950) descritas de uma ou de outra forma em mais de 10 mil livros e em milhares de artigos científicos relatando pesquisas realizadas com a finalidade de compreender a natureza do processo psicoterápico e os mecanismos de mudança e de comprovar a sua efetividade, especificando em que condições devem ser usados e para quais pacientes. Apesar de todo esse esforço, evidências convergentes são escassas. A controvérsia ainda é grande, e o reconhecimento da psicoterapia como ciência é tênue”. [8]

Alvarez et al, concordam com esse número de tipos e as classificam em quatro grandes grupos de tendências: as psicoterapias religiosas; psicoterapias corporais; psicoterapias focalizadas em um sintoma e reúne num só grupo, o magnetismo, a hipnose e a sugestão (oc. 225). Lilienfeld e Arkowitz [9] referem-se a pesquisa de John Norcross, da Universidade de Scranton que encontrou cerca de 500 tipos diferentes nos EUA, as classificando segundo abordagens usadas com mais frequência, a saber: terapia comportamental (alteração de comportamentos prejudiciais à saúde); terapia cognitivo-comportamental (alteração de formas não adaptativas de pensamento); terapia psicodinâmica (resolução de conflitos inconscientes e experiências adversas na infância); terapia  interpessoal (remediação de formas prejudiciais de interação com outras pessoas); e centrada na pessoa terapia (ajudar os clientes a encontrar suas próprias soluções para os problemas da vida). [4] [9]

O Conselho Federal de Psicologia no texto em que propôs a discussão pública sobre esse tema [8] para retratar essa diversidade, apresentou uma lista, considerada não exaustiva, cuja classificação se dá pela escola/instituição de origem (com cerca de setenta denominações no mundo), composta por três subseções:

1) Psicoterapias arcaicas ou clássicas (sete denominações, por exemplo, hipnotismo);

2) Psicoterapias psíquicas ou psicocorporais, derivadas ou dissidentes da psicanálise, conhecidas como “novas terapias” (39 denominações, por exemplo, psicodrama e gestalt-terapia);

3) Terapias do comportamento, ditas também terapias cognitivo comportamentais (TCC) – (10 denominações, por exemplo, terapia cognitivo-comportamental e dessensibilização pelos movimentos oculares).

Outras modalidades, incluídas em outra seção, estão classificadas segundo as Escolas de psiquiatria ou de psicopatologia ditas dinâmicas ou psicodinâmicas (aliança de uma clínica e de um sistema de pensamento, inclui psicanálise, psicologia clínica, psicoterapia institucional, psicologia analítica e psicologia individual).

Muitas outras subdivisões e classificações poderiam ainda ser utilizadas. Nesse mesmo texto o CFP coloca em questão se a psicologia clínica e, em especial, as psicoterapias, podem e/ou devem ser definidas como ciências?

A resposta direta, lapidar e prévia é que as psicoterapias não podem e não devem ser definidas como ciência. Não podem apenas porque elas não se enquadram no modelo paradigmático epistêmico da ‘racionalidade’ moderna hegemônica. Segundo a proposição do CFP, não devem porque sua não cientificidade não é defeito a ser corrigido no futuro, mas é o traço essencial de um saber cuja fecundidade reside justamente em resistir à pretensão de uma objetividade e de uma operacionalidade universais. Reafirmando que as psicoterapias possuem caráter sapiencial que as aproxima dos antigos exercícios espirituais e sua riqueza consiste não só em resistir ao avanço da administração total da vida, mas em preservar o lugar antes ocupado pela sabedoria antiga. [8]

acupuntura e psicoterapia com psicodélicos

No Brasil a exemplo de muitos outros países, desse o final do século XX duas novas proposições podem ainda ser citadas, e como dito no início desse texto. (1°) A incorporação da acupuntura e outras técnicas da medicina tradicional chinesa ao arsenal terapêutico da grande maioria das profissões de saúde e expansão de sua prática enquanto medicina alternativa ou práticas integrativas e complementares de saúde (PICS); e (2°) o ressurgimento das denominadas psicoterapia com psicodélicos.

Nesse blog abordamos a acupuntura enquanto ciência e profissão e também nos estendemos na avaliação de outros sistemas etnomédicos, especialmente os que utilizam psicofármacos ou substancia psicoativas com atenção especial às pesquisas sobre a utilização da ayahuasca,  a cujo sucesso inclusive se deve o renascimento do interesse por psicodélicos.

Duas ressalvas podem ser feitas aqui a propósito dos sistemas de classificação das psicoterapias e inclusão dessa “novas” e ancestrais formas de terapia, em especial a análise de Jacques-Alain Miller [7] de que estão fora do campo das psicoterapias as intervenções farmacoquímicas destinadas a modificar a consciência e algumas do grupo das terapias corporais.

No âmbito das técnicas corporais ele destaca as que utilizam a ginástica e exercícios de dominação psíquica das funções e apetites somáticos, a exemplo das fundamentadas na sabedoria oriental, o que corresponde mis exatamente ao yoga e outras técnicas de meditação, onde como em toda relação médico/ paciente ou analista/ analisado não devemos ignorar que a relação mestre discípulo

Ressaltando que a essência da psicoterapia é a relação com o outro, a relação de identificação dominação/orientação exercida entre mestre/ discípulo, e que esta segue um padrão. Conforme diz, deve-se questionar a todo tempo os limites e possibilidade desse saber e a importância da autodeterminação de cada um mesmo em questões que envolvem a saúde e conservação da vida.

Muito mais próximos das intervenções cerebrais psiquiátricas, estão a interpretação ou análise do que se apresenta como alteração de consciência nas experiências ou sessões com psicodélicos. Observe-se porém a semelhança desta às antigas proposições da narcoanálise, em busca do "insight" com um sedativo hipnótico auxiliar [10] e mesmo do uso do soro da verdade em meio jurídico, para comprovação da inocência (me perdoem a comparação) [11] . Porém não se trata apenas do efeito de uma substância, o contexto de utilização (set) é bem mais importante que o simples efeito terapêutico de uma droga. Drogas que podem ser  prescritas como antipsicótico, antidepressivo ou ansiolítico, e  que vem sendo cada vez mais utilizadas desde meados do século XX

Por outro lado, deve-se observar também que autores como, Stahl, Schwartz e Sachdeva, propõem modelos científicos para o que denominam farmacopsicoterapia, onde o efeito da psicoterapia é comparado a uma droga epigenética, ou seja capazes de produzir modificações mas que não envolvem mudanças na sequência de DNA do organismo sugerindo que tanto a farmacoterapia como a psicoterapia podem atuar convergindo para neurocircuitos semelhantes, alterando o funcionamento do cérebro como um todo e aliviar sintoma psiquiátricos. [12]

psicossomática psicologia da saúde psicoterapia orientada para o corpo

A acupuntura ou milenar técnica de aplicação de agulhas em pontos definidos do corpo - chamados de "Pontos de Acupuntura" após diagnóstico fundamentado na em ensinamentos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa, ou seja na concepção anatômica e dinâmica vital ( "fisiologia" ) própria  bem como critérios diagnósticos e associação à outras formas de intervenção (moxabustão, ingestão de ervas medicinais etc.) Sempre fundamentados na doutrina médica (cosmologia) tradicional chinesa. Segundo a MTC os "acupontos" - se distribuem principalmente sobre linhas chamadas "meridianos" ou "canais de energia" por onde circula o Chi ou bioenergia. [13]

Cabe aqui a ressalva de que no Brasil a acupuntura foi praticada por psicólogos por mais de dez anos (2002-2013) sendo fiscalizada pela Associação Brasileira de Acupuntura, (até a sua desautorização, ainda em discussão, em 2013) além de possuir diversos artigos publicados sobre sua pertinência no tratamento de patologias mentais.  Sendo também uma prática considerada complementar no tratamento da dor, tensão muscular e ansiedade em doenças crônicas, admitindo terapeutas sem outra profissão além de acupunturistas. (Oliveira, 2013) [14]

Ainda em relação a psicologia não há dúvidas que a acupuntura se insere no grupo das terapias corporais ou bioenergéticas. Encontra-se uma relação de proximidade e/ou sinonímia entre as as seguintes técnicas e aportes teóricos: Psicologia da saúde; Terapia corporal; Vegetoterapia; Técnicas psicocorporais; Hatha yoga; Treinamento autógeno; Medicina psicossomática; Psicologia médica; Psiconeuroimunologia; Psico-oncologia; Psicologia hospitalar; Saúde comportamental; Medicina comportamental.

Seria por demais extenso para o presente textos, estabelecer critérios de comparação entre cada uma dessas conceituações ou aplicações contudo uma promissora linha de investigação pode ser estabelecida a partir  do diálogo teórico sobre a visão de fenômenos psicossomáticos entre Franz Alexander (principal representante da Escola de Chicago de Psicossomática) e Wilhelm Reich (1897-1957) , o precursor do movimento das psicoterapias corporais, vegetoterapia  ou bioenergética. [15]

Curioso porém é o fato de que Wilhelm Reich mesmo em sua fase de ruptura com a psicanálise e com ciência de sua época, ao propor a existência do “orgone”  uma energia cósmica associada aos campos elétricos e sensoriais do corpo humano análogos, talvez, ás concepções orientais, não ter se referido a elas, a despeito de outros psicanalistas que fizeram, a exemplo de C.G. Jung ao estudar e publicar suas pesquisas sobre a China e religiões orientais. [16] [17]

Quanto a Franz Alexander (1891 - 1964) talvez a aproximação seja ainda mais promissora tanto para psicanálise como para interpretação da acupuntura na ótica ocidental. Alexander  desenvolveu a aplicação do pensamento psicanalítico, abrangendo o estudo das emoções e afetos,  a processos físiopatológicos. Ele lançou os fundamentos para as áreas florescentes da medicina psicossomática, medicina comportamental. [18] Foi um dos que primeiro postulou uma etiologia multicausal para doenças - um defeito constitucional específico, um conflito específico e um estressor específico, notavelmente semelhante às concepções da medicina tradicional chinesa onde uma relação entre a energia ancestral; as intempéries do tempo como frio, calor, secura, umidade, vento e as emoções (medo, tristeza, alegria, ira, e ansiedade) que regulam os órgãos internos e são resultantes dessa regulação, estão associados.


Referências

1 - Conselho Federal de Psicologia – CFP.  Resolução CFP nº 10/00, de 20 de dezembro de

2 - 2000Conselho Federal de Psicologia – CFP. Atribuições Profissionais do Psicólogo no Brasil. in: Comunicação do Conselho Federal de Psicologia ao Ministério do Trabalho destinado a  integrar o CBO - catálogo brasileiro de ocupações – enviada em 17 de outubro de 1992.

3 - ROUDINESCO, E., & PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

4 - ÁLVAREZ, José Maria; ESTEBAN, Ram´´on; SAUVAGNAT, François. Fundamentos de psicopatologia psicanalítica. Madrid: Síntesis, 2009

5 -FREUD, Sigmund. Tratamento psíquico (tratamento anímico), 1890: FREUD, S. Fundamento da clínica psicanalítica // Obras Incompletas e Sigmund Freud v.6. BH: Autêntica, 2017 p.19

6- KAPLAN, H. I. Manual de Psiquiatria Clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998

7 – ALAIN-MILLER,  Jacques. Psicoterapia e psicanálise in FORBES. Jorge (org.) Psicanálise ou psicoterapia. SP: Papirus, 1997

8 - CORDIOLI, Aristides Volpato e col. Psicoterapias: abordagens atuais. 3. ed. revista. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 20). apud CFP Conselho Federal de Psicologia. Ano da Psicoterapia, textos geradores. CFP. XIV Plenário; Gestão 2008 - 2010 disponível: https://site.cfp.org.br/publicacao/ano-da-psicoterapia-textos-geradores/ p 28-29 Acesso: Agosto de 2020

9 - LILIENFELD, Scott O.; ARKOWITZ, Hal. Are All Psychotherapies Created Equal? SciAm Mind 23, 4, 68-69 (September 2012) doi:10.1038/scientificamericanmind0912-68

https://www.scientificamerican.com/article/are-all-psychotherapies-created-equal/ Aces. Agosto, 2020

10 - BLEGER, J.: Tehoría y práctica del narcoanálisis, Bs. As, Ed. El Ateneo, 1952.

11 - FREEDMAN, LAWRENCE ZELIC, Sôros da verdade. Scientific American, 1960 In Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento, textos do Scientific American. SP Poligno, 1970

12 - SCHWARTZ, Thomas L.; SACHDEVA, Shilpa. Desfechos endofenótipos e os fundamentos teóricos sobre eficácia (introdução do livro) in: OLIVEIRA, Irismar; SCHWARTZ, Thomas L; STAHL, Stephen M. (orgs.) Integrando psicoterapia e psicofarmacologia, manual para clínicos. Porto Alegre: Artmed, 2015

13 - MAO-LIANG. Qiu (org.) Acupuntura chinesa e moxibustão. SP, Roca, 2001 ISBN 85-7241-220-4

14 - OLIVEIRA, Gislene et al. Análise bioenergética: uma revisão sistemática da literatura. Id on line, Revista de Psicologia. Ano 7 n 20, julho e 2013

15 - NASCIMENTO, Périsson Dantas. Psicossomática e psicoterapia corporal: diálogos entre Reich, Navarro e Franz Alexander.In: Encontro Paranaense, Congresso Brasileiro,Convenção Brasil/Latino-América, XIII, VIII, II, 2008. Anais.Curitiba: Centro Reichiano, 2008. CD-ROM. [ISBN–978-85-87691-13-2]. Disponível em: www.centroreichiano.com.br. Acesso em: 27/02/2020

16 - JUNG, C.G. O segredo da flor do ouro, um livro de vida chinês. RJ, Vozes, 1992

17 - JUNG, C. G. prefácio ao Bardo Thodol in Psicoterapia ocidental, oriental. RJ, Vozes, 1986

18 – ALEXANDER, Franz. MedicinaPsicossomática : Princípios e Aplicações SP: Artes Médicas, 1989

19 - Franz Alexander https://www.psiquiatriageral.com.br/psicoterapia/franz.html


Prescribing Psychologyst

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Símbolos (Psi, Higeia, Panaceia, Psicologia da Saúde Medicina de emergência) sobre mural de Klimt (1862 - 1918) Medicine (reconstruído) http://lostpaintings.net/en/artwork/klimt/


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sábado, 8 de agosto de 2020

Etnomedicina & plantas calmantes

¿ cabe aos profissionais de saúde estimular o uso e valer-se do conhecimento popular sobre plantas medicinais na pratica terapêutica dos transtornos mentais ?

Plantas calmantes, emolientes, peitorais. 
Larousse Medical Illustré, Paris, 1912. Galtier-Boissière (org.)

Etnomedicina pode ser compreendida como uma interdisciplina ou área de pesquisa e aplicação da etnologia cujo objeto são as práticas culturais voltadas para conservação e recuperação da saúde ou a medicina, como o nome indica. Envolve as descrições etnográficas sobre pessoas, os sujeitos praticantes, suas práticas e crenças (o saber popular e mitologia)  de uma cultura específica, usualmente de povos indígenas ou considerados primitivos, previne e trata as doenças, e/ou realiza os estudos etnológicos comparativos dessa prática, simultaneamente questionando as teorias que dão suporte a essa comparação.

Por seu objeto de estudo estar associado à utilização de plantas medicinais pode ser considerada como um sub-campo associado à etnobotânica ou incluído na antropologia médica que lida com o estudo das medicinas tradicionais, não apenas aquelas que têm fontes escritas e sistemas “profissionais” não hegemônicos (por exemplo, medicina tradicional chinesa ou ayurvédica), [1; 2] mas sobretudo aquelas cujo corpo de conhecimentos e práticas têm sido transmitidos oralmente ao longo dos séculos.

Observe-se porém que os sistemas culturais, em sua forma originária ou selvagem do pensamento, agir como esquemas classificatórios e organizadores do conhecimento das plantas, não se limita a este, e muitas vezes, o processo ritual terapêutico e as intervenções físicas  no corpo são, tão, ou mais importantes que o efeito farmacológico propriamente dito. Na Medicina Tradicional Chinesa a acupuntura e a fitoterapia são um típico exemplo. 

Observe-se também que apesar  do muito que já se aprendeu e lucrou  com a identificação de plantas medicinais utilizadas inicialmente somente por algumas etnias, isoladas do processo civilizatório, perderam seu referencial de origem e passaram a fazer parte das farmacopéias nacionais que integram a medicina cosmopolita universal e/ou deram origem à fármacos modernos. São reativamente limitados e difundidos os estudos, sobretudo clínicos, sobre o uso correto ou eficaz de grande parte das plantas.que integram os sistemas etnomédicos tradicionais, geralmente limitando-se aos produtos comercializáveis. 

Não há como competir com a ‘precisão científica’ associada ao marketing comercial dos medicamentos sintéticos e mesmos extratos comercializados pela indústria farmacêutica multinacional, a “big pharma” integrada ao complexo médico-industrial-financeiro.

Contudo tanto a utilização de plantas medicinais (estudadas farmacologicamente ou não) e rituais terapêuticos persistem, como disse Estrela [2], contrapondo-se à medicina cosmopolita hegemônica. Em função da diversidade existente são designados como  "medicina alternativa" ou  “práticas integrativas e medicina complementar”.

Segmentos empresariais ávidos de lucro e com limitada compreensão sobre o que é o conhecimento humano, aliado a crenças racistas ou elitistas e interesses escusos, tentam rotular essas formas de conhecimento tradicional como pseudociência desconhecendo sua especificidade enquanto etnopráticas de origem cultural diversa, ignorando resultados aparentemente anedóticos e mesmo sua plausibilidade biológica. Tais detratores limitam-se a afirmar  que não foram testadas e apresentaram resultados superiores ao efeito placebo, não são testáveis por recorrerem a explicações espirituais, religiosas ou simples crenças sedimentadas em tradições, sobre os quais apenas existem estudos inconclusivos provando a sua eficácia, concluindo, quase sempre, nas revisões sistemáticas apresentadas, que são necessários novos estudos.

A postura da Organização Mundial de Saúde frente a utilização de tratamentos alternativos é a de pesquisar, implementar o desenvolvimento de políticas proativas com planos de ação que fortalecerão o papel da medicina tradicional e ao mesmo tempo orientar no sentido de ter cautela, devido ao fato de existirem muitos terapeutas despreparados, conhecendo mal as "teorias" relacionadas a crenças tradicionais, além de pessoas inescrupulosas que se valem da boa fé e falta de informação para ludibriar e obter benefícios próprios. Nos dias de hoje esta é uma recomendação válida na maioria das situações do cotidiano, e ocorre em todos os setores profissionais e comerciais.

Ansiolíticos e sedativos

Ansiolíticos, do ponto de vista farmacológico são drogas, sintéticas ou não, usadas para diminuir a ansiedade e a tensão, com um efeito sedativo ou calmante, [4]. Segundo Viktor Frankl (1905 - 1997) [5] o neuropsiquiatra austríaco fundador da escola de psicoterapia conhecida como Logoterapia e Análise Existencial as primeiras drogas utilizadas como tranquilizantes no mundo europeu foram os relaxantes musculares (o glicerinato de guaiacol comercializado como “mioscaína” e análogos assim como os meprobomatos (miltaun, equanil e outros) e posteriormente os derivados da piperazina.

Segundo este autor o que caracteriza todos esses preparados, como denominador comum, é o seu poder de interromper e bloquear vis de condução polisinápticas sem atuar sobre os centros vegetativos ao contrário da neuroplégica (neuroléptica  ação sedativa sobre os centros nervosos) e da timoléptica (fármacos com ação antidepressiva e psicoestimulante) , além de não causarem um amortecimento do mesencéfalo ao contrário dos hipnóticos. (Frankl oc.. p.96)

A utilização de tais substancias  teve um crescimento aumentado entre 1960 e 1980. Nesse período, mais de 10% da população consumia ansiolíticos de maneira regular ou esporádica. [6] Se por um lado os grandes neurolépticos tipo (clorpromazina) e antipsicóticos derivados, diminuíram a demanda de contenção física de alguns internos em hospitais psiquiátricos (“camisa de força”, “quarto forte” etc.) geraram por sua vez riscos de overdose (sobretudo barbitúricos), síndromes de dependência e diversos outros efeitos colaterais.

O termo sedativo é sinônimo de calmante ou tranquilizante. Um medicamento hipnótico ou sonífero deve produzir sonolência e estimular o início e a manutenção de um estado de sono que se assemelhe o mais possível ao estado do sono natural. Os efeitos hipnóticos envolvem uma depressão mais profunda do sistema nervoso central (SNC) do que a sedação. A depressão gradativa dose-dependente da função do SNC constitui uma característica dos agentes sedativos-hipnóticos, na seguinte ordem: sedação, hipnose, anestesia, efeitos sobre a respiração/função cardiovascular e coma. Cada medicamento difere na relação entre a dose, sistema polisináptico de atuação e o grau de depressão do SNC.

Plantas calmantes

Algumas plantas possuem propriedades ansiolíticas ou calmantes, por mecanismos diversos. [7] [8] Apesar do uso tradicional, os elementos ativos e a relação de sua estrutura - atividade ainda são objeto de pesquisa, e não foram completamente elucidados. Alguns resultados apontam, entre as substancias presentes, para os alcalóides, flavonóides e ácidos fenólicos, lignanos, cinamatos, terpenos e saponinas que por sua vez possuem efeitos ansiolíticos em uma ampla variedade de modelos animais de ansiedade a exemplo dos mecanismos de interação com os receptores de ácido γ-aminobutírico (GABA); receptores serotoninérgicos compatíveis com a 5-hidroxitriptamina (5-HT) 1A e 5-HT2A; sistemas noradrenérgicos e dopaminérgicos, receptores de glicina e glutamato; o receptor opióide-κ, e receptores canabinoides (CB) 1 e CB2. [9] [10]

Entre as plantas mais estudadas estão as que produzem óleos essenciais como a Lavandula angustifolia, o Citrus aurantium; [11] a Melissa officinalis;[12] diversas espécies de mulungu (Erythrina) [13] [14] [15]; as reconhecidas: valeriana (Valeriana officinalis), [16] [17] camomila (Matricaria chamomilla L.) [18] e passifloras. [19] [20] [21]

Uma oferta orientada de plantas com efeito psicoativo sedativo e/ou anti-depressivo possivelmente pode reduzir a demanda pela classe de psicotrópicos industrializados utilizados como medicação psiquiátrica. Além  de ser um importante apoio terapêutico a uma intervenção não baseada na hospitalização, pode valorizar ainda o saber popular dos “raizeiros” e vendedores de ervas e recursos ecológicos de cada comunidade.

Contudo como vimos muito ainda falta para integrarmos o conhecimento popular oriundo de diversas culturas a uma pratica clínica que não se limite à prescrição controlada indiretamente pela indústria farmacêutica e marketing comercial revestido de cientificidade, praticado por farmacêuticos e médicos contratados pela “big pharma”. Não devem ser esquecidos, estudados e aperfeiçoados os relativamente bem sucedidos programas de "Médicos de Pés Descalços" na China ( 赤脚医生 - atualmente médicos rurais / village doctors) e os "Agentes Comunitários de Saúde" do SUS - Sistema Único de Saúde no Brasil.

Referências

1- KLEINMAN, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as Cultural Systems. IN: Currer,C e Stacey,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986

2- ESTRELA, Estrela. As contribuições da antropologia à pesquisa em saúde. in NUNES, Everaldo D. (org.) As ciências sociais em saúde na América Latina. Tendências e perspectivas. Brasília OPAS, 1985

3- ACHARYA, Deepak; SHRIVASTAVA, Anshu: Indigenous Herbal Medicines: Tribal Formulations and Traditional Herbal Practices. Aavishkar Publishers Distributor, Jaipur / India 2008, ISBN 9788179102527, p. 440. 

4 - OMS /WHO Health topics/Traditional medicine. https://www.who.int/westernpacific/health-topics/traditional-complementary-and-integrative-medicine  Acesso em agosto de 2020

5 – FRANKL, Viktor. A psicoterapia na prática. SP: Papirus, 1991

6 - AZEVEDO, Ângelo José Pimentel de, Araújo, AURIGENA, Antunes de; FERREIRA, Maria Ângela Fernandes. Consumo de ansiolíticos benzodiazepínicos: uma correlação entre dados do SNGPC e indicadores sociodemográficos nas capitais brasileiras. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2016, v. 21, n. 1 [Acessado em agosto 2020] , pp. 83-90. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1413-81232015211.15532014>. Epub Jan 2016. ISSN 1678-4561. https://doi.org/10.1590/1413-81232015211.15532014.

7 - SOUSA, Francisca C. F. et al . Plantas medicinais e seus constituintes bioativos: uma revisão da bioatividade e potenciais benefícios nos distúrbios da ansiedade em modelos animais. Rev. bras. farmacogn., João Pessoa , v. 18, n. 4, p. 642-654, Dec. 2008 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-695X2008000400023&lng=en&nrm=iso>. access on  Aug. 2020. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2008000400023

8 - SOUSA,Rodrigo Francisco de; OLIVEIRA,Ykaro Richard; CALOU,Iana Bantim Felício. Ansiedade: aspectos gerais e tratamento com enfoque nas plantas com potencial ansiolítico. Revinter, v. 11, n. 01, p. 33-54, fev. 2018.doi: http://dx.doi.org/10.22280/revintervol11ed1.327 PDF Acessoem agosto de 2020

9 – FARZAEI, MH, et al.. A systematic review of plant-derived natural compounds for anxiety disorders. Curr Top Med Chem. 2016 Feb 4 Abstract Aces. Fev. 2016

10 - PETENATTI, Marta E. et al . Evaluation of macro and microminerals in crude drugs and infusions of five herbs widely used as sedatives. Rev. bras. farmacogn., Curitiba , v. 21, n. 6, p. 1144-1149, dez. 2011 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-695X2011000600027&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 24 fev. 2016. Epub 29-Jul-2011. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2011005000129.

12 - Taiwo AE, Leite FB, Lucena GM, et al. Anxiolytic and antidepressant-like effects of Melissa officinalis (lemon balm) extract in rats: Influence of administration and gender. Indian Journal of Pharmacology. 2012;44(2):189-192. doi:10.4103/0253-7613.93846. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3326910/

12 - ALMEIDA, Emanuel Eustáquio. Caracterização farmacognóstica da espécie Erythrina falcata Benth., Fabaceae. Rev. bras. farmacogn., Curitiba , v. 20, n. 1, p. 100-105, Mar. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-695X2010000100020&lng=en&nrm=iso>. access on 24 Feb. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2010000100020.

13 - SOUSA, Damião Pergentino de; HOCAYEN, Palloma de Almeida Soares; ANDRADE, Luciana Nalone; Roberto ANDREATINI; A Systematic Review of the Anxiolytic-Like Effects of Essential Oils in Animal Models. Molecules 2015, 20(10), 18620-18660; doi:10.3390/molecules201018620 http://www.mdpi.com/1420-3049/20/10/18620

14 -SERRANO, Maria Amélia Rodrigues et al . Anxiolytic-like effects of erythrinian alkaloids from erythrina suberosa. Quím. Nova, São Paulo , v. 34, n. 5, p. 808-811, 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422011000500015&lng=en&nrm=iso>. access on 24 Feb. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40422011000500015.

 15 - PODEROSO, J.C.M. et al . Primeiro registro no Brasil de Erythrina velutina Willd. como hospedeira de Tetranychus neocaledonicus (Acari: Tetranychidae). Rev. bras. plantas med., Botucatu , v. 12, n. 3, p. 398-401, Sept. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-05722010000300017&lng=en&nrm=iso>. access on 24 Feb. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-05722010000300017.

 16 - You J-S, Peng M, Shi J-L, et al. Evaluation of anxiolytic activity of compound Valeriana jatamansi Jones in mice. BMC Complementary and Alternative Medicine. 2012;12:223. doi:10.1186/1472-6882-12-223. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3526556/

 17 - ALEXANDRE, Rodrigo F.; BAGATINI, Fabíola; SIMOES, Cláudia M. O.. Potenciais interações entre fármacos e produtos à base de valeriana ou alho. Rev. bras. farmacogn., João Pessoa , v. 18, n. 3, p. 455-463, set. 2008 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-695X2008000300021&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 24 fev. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2008000300021.

 18 - CE, Archana. An Investigation of Antianxiety Effect of Alcoholic Flower Extract of Matricaria Chamomilla l in Mice.. Asian Journal of Pharmacology and Toxicology, [S.l.], v. 1, n. 01, p. Page Numbers: 1-7, sep. 2013. ISSN 2347 - 3886. Available at: <http://www.literatipublishers.com/Journals/index.php?journal=AJP&page=article&op=view&path%5B%5D=12&path%5B%5D=10>. Date accessed: 24 Feb. 2016. doi:10.15272/ajpt.v1i01.12.

 19 - SANTOS, Kely Cristina dos et al . Sedative and anxiolytic effects of methanolic extract from the leaves of Passiflora actinia. Braz. arch. biol. technol., Curitiba , v. 49, n. 4, p. 565-573, July 2006 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-89132006000500005&lng=en&nrm=iso>. access on 24 Feb. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-89132006000500005.

 20 - SANTOS Kely Cristina dos. Atividades sedativa e ansiolítica dos extratos de Passiflora actinia Hooker, PASSIFLORACEAE. Dissertação (Mestrado) apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas do Setor de Ciências da Saúde, da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Cid Aimbiré de Moraes Santos; Maria M.Weffort de Oliveira. Curitiba, 2003 PDF Acesso. Fev. 2016

 21 - PROVENSI, Gustavo. Investigação da atividade ansiolítica de passiflora alata curtis (passifloraceae). Dissertação de Mestrado. Orientador: Rates, Stela Maris Kuze, Co-orientador: Gosmann, Grace Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Farmácia. Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas. RGS, 2007 PDF Aces, Fev. 2016


Nota:  Além das referências citadas utilizamos ainda, nossas contribuições a alguns textos da wikipédia pt,, sobretudo textos dos verbetes “Etnomedicina "Ansiolíticos" e alguns outros já bastantes desfigurados pela guerra de editores sobretudo envolvidos crença de “racionalidade científica superior”. Naquela enciclopédia colaborativa, universal e multilíngue assino como CostaPPPR. Observe-se que de modo algum desmereço o valor daquela proposição de construção coletiva que é a Wikipédia e entendo como natural da ciência e natureza humana tais conflitos que examinados no ótica de Thomas Kuhn (1922-1996) fazem parte da construção e transformação dos paradigmas das teorias na história da ciência.



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Digestão, ato e construção agressiva

Qual a melhor estratégia para entender e intervir no comportamento depressivo, a antiga melancolia descrita pelos gregos ou a atual patologia classificada no CID 10 revisão, como episódios e transtornos depressivos?

Parafraseando Lacan são inegáveis as contribuições da psicanálise sobre a experiência subjetiva com seus resultados na psicologia concreta. Na psicologia das emoções, por exemplo, podem ser identificados estados tão diversos como o medo fantasístico, a cólera, a tristeza ativa e a fadiga psicastênica (Lacan, 1998 p.112-113)

Intrigantes também são as contribuições da psicanálise à criminologia, o estudo dos motivos do suicídio e a pertinente a observação que fez sobre o poder do ato agressivo desfazer a construção delirante. (Lacan, 1998 o.c.)

Vincente Van Gogh

No caso específico do suicídio e tristeza são também relevantes as observações de Storr (1978) sobre a depressão e agressividade. Ao meu ver considerando o conjunto de sinais e sintomas da síndrome depressiva temos como estratégia a intervenção em qualquer um de suas manifestações. A ênfase tem sido dada a abordagem farmacológica de neurotransmissores da tristeza/alegria (?), mas há sinais e sintomas relacionados à fadiga, desânimo  e/ou, há os aspectos subjetivos e circunstanciais interpessoais da origem de tal sentimento ou de sentimentos como o luto, o remorso, ou sensação de culpa e baixa de auto-estima.

Recentes pesquisas sobre saúde do microbioma intestinal e saúde mental especialmente depressão me fizeram voltar a questão das observações de Storr sobre depressão e agressão especialmente da condição de entrada e saída no quadro depressivo com episódios e manifestação de irritabilidade e agressão, o que não é nenhuma novidade para medicina tradicional chinesa que associa a irritabilidade e raiva a disfunções do meridiano do fígado. O Dr. Fernando Hoisel, psiquiatra e médico nutrólogo, comentando tal relação (em comunicação pessoal) me fez observar a etimologia da palavra “enfezado” como possível constatação e também suas observações clinicas da melhora dos estado geral de saúde com o tratamento da prisão de ventre. Algumas vezes citou um dito da medicina natural ou sabedoria popular que recomendava mamão para abrandar irritação e a raiva.

A proposição de Anthony Storr, expressa no capítulo ( 8) "agressão em relação à depressão" do seu livro "A agressão Humana" (1976) é o registro de que: apesar da relevância a tristeza na depressão, esta não é o principal sinal de tal condição. Assinala que "também existe uma indisposição para a atividade que pode chegar a imobilidade quase completa e um retardamento dos processo mentais...uma perturbação do ritmo do sono, perda do apetite, constipação, diminuição do desejo sexual entre outros sinais onde destaca a severa inibição do impulso agressivo precedido ou sucedido pela irritabilidade, antes ou depois do quadro depressivo propriamente dito (o.c. p.90, 92)

Ainda segundo Storr observe-se que relação entre a agressão e a depressão também pode ser sublinhada pela referência ao estudo recente de D. J. West, Murder Followed by Suicide, onde se constatou que “de cada três assassinatos cometidos na Inglaterra, um é seguido pelo suicídio do assassino. O que por sua vez nos remete à proposição ou hipótese de Freud de que, segundo ele, a agressão contra outros e a agressão contra o eu estão reciprocamente relacionadas e são, até certo ponto, intercambiáveis.

Para finalizar este breve escrito de pesquisa sobre as estratégias de intervenção na síndrome depressiva para que não seja somente o ato agressivo o que desfaça a construção agressiva deixo esta preciosa reflexão sobre o conceito de “passagem ao ato” na psicanálise e a recomendação de leiam sobre tal artigo ou questionem a proposição de intervenções na regulação do aparelho digestivo associada ou não à intervenções psicofarmacológicas e psicanalíticas.

"O papel do sintoma, estimava Freud, é o de proporcionar uma resposta à angústia. No entanto, existem casos em que, de forma temporária ou duradoura, a angústia não fica velada pelo sintoma e o sujeito se vê diretamente defrontado com ela. Em tais casos podemos descrever dois tipos de configuração sintomatológica: um em que a angústia é o sintoma dominante sem necessariamente encontrarmos saídas pelos atos, e outro no qual a angústia irá determinar ações, ainda que se trate de demandas veladas de ajuda (acting-out), ainda que seja que o sujeito periga com elas uma saída definitiva (passagem ao ato)". Álvarez, Esteban e Sauvagnat (2004, p. 268, apud: Calazans, Bastos, 2010)

Referências

BARNEY, Joshua  Probiotic in Yogurt Reverses Depression. March 07 2017

CALAZANS, Roberto; BASTOS, Angélica. Passagem ao ato e acting-out: duas respostas subjetivas. Fractal, Rev. Psicol., Rio de Janeiro , v. 22, n. 2, p. 245-256, Aug. 2010 . Available from < http://www.scielo.br/pdf/fractal/v22n2/02.pdf >. access on 02 Aug. 2017.

LACAN Jacques. A agressividade em psicanálise. in: LACAN Jacques. Escritos. RJ Zahar, 1998 Disponível na Página da BIBLIOTECA SIGMUND FREUD

MARIN, Ioana A. et al. Microbiota alteration is associated with the development of stress-induced despair behavior. Nature Scientific Reports 7, Article number: 43859 (2017) https://www.nature.com/articles/srep43859  aces. agosto, 2017

STORR, Anthony. A agressão Humana" RJ: Zahar, 1976

TORRADO.  Depressão - Um Estudo de como a Medicina Ocidental e a Medicina Tradicional Chinesa se Complementam. Curitiba, Paraná: Ed Juruá, 2009 
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Ilustração: Tristeza é uma litografia do pintor holandês Vincent van Gogh, datada de 11 de novembro de 1882. A mulher grávida que serve de modelo à obra, Clasina Maria Hoornik (mais conhecida como Sien), foi uma prostituta com quem Van Gogh viveu entre os anos de 1882 e 1883. (Wikipédia)


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Ver também:  Dian Kuang - 癫狂

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

autodisciplina

cérebro, mente & cultura

規律 kiritsu; 自粛 jishuku; 躾 shitsuke; 主要 shuyo



Yogues e samurais são dois ícones modernos do autocontrole e domínio que se fundamentam na disciplina, ou melhor, na autodisciplina, mas o que quer dizer exatamente esta palavra? ...e de que modo esta prática se institui na mente, cérebro ou cultura, permitindo tal domínio do si mesmo (self)? Para responder poderíamos nos remeter à origem das línguas uralo-altaicas e indo-européias diferenciando o japonês do sânscrito e da língua portuguesa, mas a resposta também está numa possível definição de mente entrevista nos domínios da neuroantropologia, o que esta breve comparação de padrões culturais tenta fazer.

Sabe-se por dicionários a disciplina como o regime ou ordem imposta ou livremente consentida, o que convém ao funcionamento regular da organização dos hábitos ou das instituições (militar, escolar, etc.). É possível inclusive que as relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor para aprender determinado oficio ou conjunto de informações, posteriormente derivaram as designações de ramos específicos do conhecimento ou “cadeiras” dos estabelecimentos de ensino.

Comparando este termo latino disciplina que por sua vez, tem origem no latim discere (aprender), com as línguas orientais encontra-se uma semelhança de significado com o ideograma 躾 shitsuke, que corresponde á educação, treino, e/ou podemos identificar uma equivalência com a expressão 自粛 jishuku - autodisciplina (limitação, controle). Contudo fica nítida a diferença quando encontramos ainda este significado nos ideogramas que também designam 規律 kiritsu - lei - (disciplina) e 主要 shuyo (disciplina) – característica essencial / primordial (main). Este último traduzido por Ruth Benedict (1887-1948), em sua clássica análise da cultura japonesa como: “o poder de viver plenamente e alcançar o gosto da vida”. Os conceitos japoneses de autodisciplina, segundo ela, podem ser divididos esquematicamente naqueles que conferem competência e naqueles que conferem algo mais, o além da “competência”, a “perícia” (shuyo) da plenitude da vida e perfeição.

Quanto a comparação com a yoga na Índia, onde originalmente era uma prática ascética e/ou um culto à maneira de alcançar a libertação do ciclo da reencarnação e comunhão com a divindade, Feuerstein assinala, que a yoga integrava o conjunto de práticas de autodomínio niyama, mais especificamente da restrição e resistência ou tapas.

Assim refere-se Benedict (1946) as semelhanças e diferenças da autodisciplina indiana e japonesa:

Muitas civilizações aperfeiçoaram técnicas desse gênero, porém, os objetivos e os métodos japoneses possuem um caráter marcante todo seu, o que vem a ser especialmente interessante, pois grande número daquelas provém da Índia, onde são conhecidas como ioga. As técnicas japonesas de auto-hipnotismo, concentração e controle dos sentidos revelam ainda parentesco com práticas indianas. Verifica-se uma ênfase similar no esvaziamento da mente, na imobilidade do corpo, em dez mil repetições da mesma frase, na fixação da atenção num símbolo escolhido. Até mesmo a terminologia utilizada na Índia é ainda reconhecível. Além desse visível arcabouço do culto, no entanto, a versão japonesa pouco tem em comum com a hindu. ... Benedict (1946) o.c. p.200

Benedict (1946) observa também que apesar do Japão ser uma grande nação budista os objetivos da meditação e iluminação (悟り satori) é o aperfeiçoamento imediato “aqui e agora” sem outro poder além do humano seja ele um esgrimista, estadista ou estudante, ao contrário do nirvana ou sâmadhi indiano uma realidade intocada pelo espaço-tempo (Feuerstein), sem a qual o homem não tem salvação. (Benedict, 1946)

sâmadhi, satori, nirvana



Para Eliade, analisando as técnicas do yoga a partir dos escritos de Patañjali, o ponto de partida da meditação é a concentração e a perfeição desta requer diversas etapas ou “técnicas” auxiliares que são os refreamentos (yama) e disciplinas (niyama), preliminares inevitáveis a qualquer ascese e principalmente para se obter o samâdhi ou libertação definitiva. Os refreamentos (yamas) constituem-se como um código de ética (não matar; não roubar; não mentir; dominar o desejo sexual e a avareza). As disciplinas (niyamas) por sua vez constituem-se como técnicas propriamente ditas (higiene, renuncia ou ascese, estudo, esforço para fazer de Deus o motivo de todas as ações).

Parafraseando ainda Benedict, não há quem veja o mundo sem o espírito condicionado por um conjunto definido de costumes, instituições e modos de pensar (1934) e as autodisciplinas de uma cultura têm sempre possibilidade de parecerem irrelevâncias aos observadores de outro país (1946).

Contudo apesar do paradoxo enunciado por Geertz sobre o panorama de um mundo cada vez mais global (completamente interligado) e mais dividido (intrincadamente compartimentalizado) – o cosmopolitismo e o provincianismo já não se opõem; ligam-se e se reforçam e cabe ao antropólogo combater o racismo e amenizar conflitos promovendo o entendimento entre os povos. Benedict (1934), a propósito da integração de culturas nos propõe ser este um processo análogo ao modo como se formam e persistem os estilos de arte.

No estudo e domínio da autodisciplina poderemos obter o equivalente a uma arte única e homogênea, rejeitar alguns elementos modificar, inventar e acrescentar outros, tal e qual os estilos de arte?

Numa perspectiva ocidental pode se deduzir que foi este o caminho da integração da disciplina nas artes marciais orientais nas academias ocidentais ou do yoga nas praticas de educação física ou medicinas integrativas e complementares no ocidente. Integrou-se também a psicologia, onde a autodisciplina inclui: o automonitoramento para mudança de estilo de vida e construção de hábitos saudáveis; técnicas de autoregulação (respiração diafragmática, relaxamento progressivo etc.) para autocontrole da dor na linha teórica das "terapias cognitivo-comportamentais" - TCC (Wright et al.; Wedding, Stuber). Nesta proposição da TCC comportamentos e crenças disfuncionais correspondem ao autocontrole/autodisciplina insuficientes. (Petroff)

Voltando à perspectiva de interpretação antropológica, é também clássica a proposição de Marcel Mauss de interpretação da relação entre as culturas ou o modo como os homens e as sociedades sabem servir-se do corpo, descrevendo e classificando as técnicas corporais. O desafio, nessa perspectiva, seria então aproximar o entendimento das técnicas do sono e vigília ou “sistema de montagens simbólicas” que delimitam as atividades da consciência segundo Rivers e Head (Mauss o.c. p.408)

A moderna antropologia, especialmente a antropologia médica ou etnomedicina também nos oferece inúmeros exemplos, em especial, do que tem se convencionado chamar de neuroantropologia, o campo interdisciplinar da antropologia / neurociência. As pesquisas do nexo entre o cérebro e a cultura têm evoluído graças ao avanço tecnológico e o desenvolvimento de métodos observacionais e experimentais associados à ressonância magnética funcional, eletroencefalografia, em conjunto com técnicas de manipulação e de interferência, tais como estudos de lesões e estimulação elétrica. (Domínguez et al.)

Observe-se porém, como ressalva Geertz em sua análise sobre a cultura, mente, cérebro ou cérebro mente, cultura:

...a evolução coetânea do corpo e da cultura, o caráter funcionalmente incompleto do sistema nervoso humano, o fato de o sentido ser um componente do pensamento e de o pensamento ser um componente da prática - sugere que o caminho para uma melhor compreensão do biológico do psicológico e do sociocultural não passa pela disposição deles numa espécie de hierarquia da cadeia do ser, estendendo-se do físico e do biológico até o social e o semiótico, com cada nível emergindo e dependendo do que lhe está mais abaixo (e, com sorte, sendo redutível a ele). Tampouco passa por tratá-los como realidades descontínuas e soberanas, como campos fechados e isolados, externamente ligados uns aos outros ("numa interface" uns com os outros, como diz o jargão) através de forças, fatores, quantidades e causas vagos e acidentais.Constituindo uns aos outros e reciprocamente construtivos, eles devem ser tratados como tais - como complementos, não níveis; como aspectos, não entidades; como paisagens, não domínios. Geertz o.c. p.181

Para concluir podemos dizer que a autodisciplina dos samurais (peritos em arte marcial do Japão dos sec. X ao XIX) e yogues ascetas hindus é um resultado das suas respectivas concepções – traduzíveis inclusive em seus respectivos códigos de ética (o bushido (武士道) ou como vimos nos yama expressos, por exemplo, nos aforismos de Patanjali (200 a.C. - 400 d.C.) que dirigem e reforçam as respectivas práticas. Tais códigos e concepções não podem, no entanto ser reduzidos ao "nível" semiótico – psicológico ignorando-se os valores culturais que possivelmente lhe deram origem.

Por outro lado e como diz Geertz (o.c.) “o cérebro não está em um tonel e sim no corpo e não se pode dizer que a autodisciplina obtida, é um resultado independente da neurofisiologia e aprendizado do satori, nirvana ou sâmadhi enquanto níveis de consciência ou formas de organização cerebral que permitem o domínio das funções corporais. Simultaneamente sendo também um aspecto do desenvolvimento individual cognitivo-emocional e/ou da comunicação social e comportamento coletivo.

Bibliografia

BENEDICT, Ruth. (1946) O crisântemo e a espada. SP: Perspectiva, 2014

BENEDICT, Ruth. (1934) Padrões de Cultura. Lisboa: Editora Livros do Brasil

FEUERSTEIN, Georg. A tradição do yoga. SP: Ed. Pensamento, 2006

DOMINGUEZ, Duque JF; TURNER, R; LEWIS ED; EGAN G. Neuroanthropology: a humanistic science for the study of the culture–brain nexus. Social Cognitive and Affective Neuroscience. 2010;5(2-3):138-147. doi:10.1093/scan/nsp024.

ELIADE, Mircéa. Patañjali e o yoga. Liboa: Relógio D’Água, 2000

GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia. RJ: Zahar,2001

MAUSS, Marcel. As técnicas do corpo (1934) in: MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. SP: Cosac Naif, 2003

PETROFF, Thaís. Entenda os comportamentos disfuncionais (Parte II) Portal Vya Estelar. http://www2.uol.com.br/vyaestelar/comportamentos_disfuncionais01.htm aces. abr. 2016

TANGORIN English ⇆ Japanese dictionary http://tangorin.com/ aces. abr. 2016

WEDDING, Danny; STUBER, Margaret L.. (org.) Medicina Comportamental. SP: Manole, 2014

WRIGHT, Jesse H. ... [et al.]. Terapia Cognitivo-comportamental de Alto Rendimento Para Sessões Breves. Porto Alegre: Artmed, 2012

Ilustração: Wikimedia Commons

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Demandas de medicação psiquiátrica, prescrição e alternativas



Apesar da proliferação de técnicas e modelos de atenção, a cura pela palavra e o aconselhamento psicológico ainda são as principais formas de intervenção psicoterapêutica. As “novas” formas de atendimento aos transtornos mentais, que tomam a palavra falada como instrumento terapêutico, inclusive aliada ao uso de psicofármacos, tiveram seu início nas proposições da psicanálise e/ou outras formas de psicoterapia baseadas na própria psicanálise e em teorias da aprendizagem (behaviorismo, reflexologia) no início de século XX. Contudo a diversidade de modelos teóricos que lhes fundamentam, é  tal ordem que, alguns autores já consideram que um ramo da psicanálise não entende outros, e que não se designa mais psicologia e sim psicologias. (BOCK, 1999; MEZAN, 2014) 

A parte das controvérsias e exclusão das referências ao uso de plantas medicinais psicoativas nos sistemas culturais, a maioria dos autores toma como marco do nascimento da psicofarmacologia o início da utilização da clorpromazina para tratamento farmacológico, relativamente eficaz, da esquizofrenia. A clorpromazina, sintetizada em dezembro de 1951 foi considerada na época a droga mais eficaz até então conhecida, para controle da excitação, agitação e sintomas psicóticos similares a ilusões e alucinações (BAN, 2007).

Atualmente tem se tentado um modelo terapêutico que integre as conquistas da neurociência e psicofarmacologia, dado ao reconhecimento da eficácia de psicofármacos, e das conquistas da psicanálise/psicoterapia. Apesar do que ainda poderá ser desenvolvido a partir dos dados da clínica psicoterapêutica e pesquisa em neurociência, o campo analítico já possui numerosas intersecções com a psiquiatria, e esta com a psicanálise. (BOGOCHVOL,1995 / 1997; FREY, et al  2004)

Quanto às doenças ou transtornos mentais, segundo dados de prevalência internacionais adotados pelo Ministério da Saúde, 3% da população apresentam transtornos mentais severos e persistentes, necessitando de cuidados contínuos, e mais 9 - 12% (totalizando cerca de 12 a 15% da população geral do País, em todas as faixas etárias) apresentam transtornos mentais leves, e necessitam de cuidados eventuais (BRASIL,2010). 

Uma rede de serviços de saúde mental, conforme preconizado pela Reforma Psiquiátrica e adotado pelo SUS em substituição do modelo assistencial centrado na hospitalização, deve ser composta por diversas ações e serviços de saúde mental: ações de saúde mental na Atenção Primária, (leia-se ações da USF – Unidades de Saúde da Família); Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ambulatórios, residências terapêuticas, leitos de atenção integral em saúde mental (em CAPS III e em hospital geral), Programa de Volta para Casa, cooperativas de trabalho e geração de renda, centros de convivência e cultura, entre outros. 

Sabe-se também que apesar de delineamento correto de modelo ideal, ainda possuímos uma oferta insuficiente em quase todas as unidades de serviço acima referidas, inclusive de profissionais de saúde especializados.

Uma das estimativas possíveis para oferta de serviços de psiquiatria é a disponibilidade de 1 psiquiatra para cada 50.000 habitantes em cidades com mais de 200.000 habitantes, o que representa em média para o Brasil de 192.379.287 habitantes (2011), uma quantidade de 3.848 psiquiatras. Um número, em tese superado dado ao registro de 7.032 psiquiatras (3,44 % do total de médicos) no Censo do Conselho Federal de Medicina de 2001, isto se não considerássemos as desigualdades regionais, limitação da oferta em serviços privados e concentração urbana dessa força de trabalho.

Observe-se que tal demanda foi estimada para um modelo assistencial que preconizava simultaneamente 0,8 leitos de psiquiatria para cada 1.000 habitantes /ano ou 4 leitos para cada 5.000 habitantes / ano, o que requer outros dados sobre a forma de avaliação e a oferta de internamento hospitalar (cerca de 8 internações leito/ano com uma média de permanência de 36,5 dias).

Por outro lado considerando a demanda de 2 a 3 consultas médicas por habitante/ ano sendo 5% de psiquiatria como estipulado nos parâmetros propostos por Borges e Moura Filho (1980) temos para o Brasil de 2011 com 192.379.287 habitantes, respectivamente uma demanda de 19.237.929 e/ou 28.856.893 consultas de psiquiatria / ano, uma realidade bem inferior a oferta dos ambulatórios do SUS – Sistema Único de Saúde registrados entre 1999 e 2007 cuja média de consultas em psiquiatria (proced. SIA-SUS 0701230) foi 4.508.981 ou seja algo entre 5 e 6 vezes menos que a demanda estimada.

Os parâmetros de oferta possíveis mas reduzidos, como proposto na Portaria 1101 GM de 12 de Julho 2002 onde se propôs 2 consultas/hab./ano, sendo 2,2% do total de consultas em Psiquiatria significa que em números totais de população atingida em 2001 (192.379.287 habitantes) a realização de 384.758.574 consultas médicas/ ano sendo 8.464.688 consultas de psiquiatria ou seja valores ainda superiores a média de consultas realizadas como vimos. Observe-se também que um parâmetro de consulta 2 vezes por ano, praticamente é o limite da reposição de receitas de prescrição de psicofármacos sendo bastante inferior ao que pode ser estimado como demanda associada de psicoterapia a ser realizada por tais profissionais como devido.

Tomando como exemplo a demanda de psicofármacos do Estado de Sta Catarina, de acordo com  o Relatório de Pesquisa sobre Psicofármacos no SUS da Secretaria de Estado da Saúde. Florianópolis: SES/SC (2003) apesar deter havido um incremento do número de atendimentos e a criação de vários CAPS, entre 1999 e hoje, não houve alteração do volume de recursos federais voltados ao fornecimento de medicamentos psiquiátricos à nova população atendida.

Utilizando-se uma metodologia que coteja a estimativa de prevalência dos diversos tipos de transtornos mentais e os serviços médicos ofertados pelo SUS, o referido estudo realizado na população catarinense calculou o número de consultas dadas nos serviços públicos ambulatoriais projetando sobre eles se as percentagens de prevalência de cada doença psiquiátrica, em proporções epidemiologicamente válidas, calculando também as doses médias indicadas acada paciente, por um ano.

Estimou-se as quantidades de remédios, de uso na área da saúde mental das diversas classes terapêuticas, de modo que atenda as necessidades reais da população catarinense (5.607.160 habitantes em 2003), evitando a falta destes tipos de remédios nas farmácias públicas. Em relação aos antidepressivos e ansiolíticos, categorias de potencial substituição por prescrição adequada de planta medicinal associada à psicoterapia temos:

1 - antidepressivos ou timolépticos, representados pela imipramina 25 mg, comprimidos, pela clomipramina 25 mg, e pela amitriptilina 25 mg, - três milhões de comprimidos por ano.

2 - fluoxetina - um milhão de comprimidos de 20 mg por ano (caso utilizada modificaria a demanda estimada no item 1.

3 - carbonato de lítio, em comprimidos de 300 mg - 1.400.000 comprimidos por ano.

4 - diazepan 10 mg - 2 milhões de comprimidos por ano/ clordiazepóxido 10 mg - 2 milhões de comprimidos.

A referida estimativa de utilização de psicofármacos para população de Sta. Catarina baseou-se em estudos epidemiológicos que encontrou uma prevalência global de 23,72% de transtornos mentais na população, incluindo entre estes, o uso de tabaco.

Observe-se que este mesmo estudo que delineia a demanda constata os reduzidos recursos para seu atendimento, a exemplo do  consumo de amitriptilina que dispôs em relatórios da instituição de uma aquisição de 1.560.000 comprimidos em e 2002 enquanto a demanda constatada,  por volume de pedidos encaminhados ao Serviço de Saúde Mental e à Diretoria de Assistência Farmacêutica da Secretaria de Estado da Saúde,  foi de cerca de 4 milhões de comprimidos.

Estudos transversais de consumo de psicofármacos através de questionários nos CAPS tipos I e II na Região Sul do Brasil. em 2006, constatou a realidade da carência de distribuição e fornecimento de psicofármacos na rede do SUS, como fator de prejuízo da terapia medicamentosa desse serviço especializado de saúde mental, diante das condições socioeconômicas dos usuários. (Kantorski et al 2011)

Observe-se também que tal estimativa de consumo de psicofármacos fundamenta-se em um modelo centrado na oferta de tratamento psicofarmacológico que tem sido amplamente criticado. Entre outras razões inclusive remete-se à escassez de profissionais de psiquiatria no país como um todo e a prescrição “inadequada” de psicofármacos por médicos clínicos não capacitados para tal, o que aparente justifica o elevado consumo encontrados em diversas populações.

Pelo apresentado constata-se ser evidente a necessidade de um modelo que contemple as demandas de serviços indicados pela elevada prevalência de distúrbios mentais e que simultaneamente reduza a oferta de medicamentos psiquiátricos.

Diversas opções tem sido cogitadas:

Entre as proposições de criar um modelo alternativo a tal demanda e oferta de serviço de saúde mental que utiliza psicofármacos está a educação de profissionais e da população na utilização de fitoterápicos e práticas complementares, considerando-se especialmente o potencial de uso tradicional na formação multi-étnica do Brasil. Observe-se que diversas culturas africanas (sobreviventes aqui como religiões) e ameríndias utilizam substancias psicoativas em seus sistemas etnomédicos.
Outra estratégia pode ser uma oferta mais qualificada, seja apenas ou psiquiatras (melhor capacitados para psicoterapia)  e/ou seja por médicos clínicos e psicólogos capacitados em psicofarmacologia.  Alguns estados dos EUA já optaram por uma oferta mais qualificada com a prescrição de psicofármacos por psicólogos (Rx P),  a saber:  Hawai (1985), Novo México (2002),  Louisiana (2004), e New Jersey e Illinois  em 2014  - ver mapa da situação em 2002 ilustrando a evolução da Rx P em tendência crescenteSegundo Patrick H. De Leon, PhD, JD, em um discurso presidencial na convenção anual da APA - American Psychological Association, de 2003,  ao apresentar a história da Rx P ressalta que uma grande força motriz da campanha dos psicólogos para obter os privilégios da prescrição (Rx P) nos EUA foi a necessidade do país de oferecer cuidados de saúde de melhor qualidade por demanda da oferta da clínica psiquiátrica.  O poder de prescrição (Rx P) obtida no Estado do Novo México é um exemplo, pois este estado ocupa a última posição no país em termos de quantidade e qualidade de cuidados de saúde onde seus cidadãos inclusive têm pouco ou nenhum acesso a psiquiatras. (MURRAY 2003) . A esta possibilidade de determinação da capacitação /formação de psicólogos em psicofarmacologia para prescrição de psicofármacos (Rx P), deve-se considerar também o papel que os psicólogos já desempenham na produção teórica e assistência aos usuários de drogas e dependentes químicos nos serviços de reabilitação dos EUA, Brasil e outras regiões do mundo.

Ainda como estratégia de redução de uma demanda excessiva de medicação psiquiátrica está a proposição da “Gestão Autônoma de Medicação” – GAM ou criação de um “espaço” onde profissionais de saúde e usuários possam melhor avaliar o eficácia terapêutica de medicação a partir da reflexão de efeito individual compartilhada. (Onocko, et AL, 2014 GAM) Estratégia essa, para a qual, a alternativa de desenvolvimento de utilização fitoterápicos só vem a reforçar a idéia de um menor uso de psicofármacos industrializados.

Não há dúvida que haveremos de encontrar um modelo próprio com implicações tanto em reformas do ensino médico e dos cursos de psicologia, como da política de saúde mental do país. A grande questão é até quando suportaremos as consequências, as demandas de patologias evidenciadas nas pesquisas epidemiológicas de saúde mental e elevação da criminalidade por tráfico e consumo de drogas, em uma população carente e desassistida como a nossa.

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