segunda-feira, 20 de abril de 2015

Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina hipocrática.

Esse trabalho faz parte de um estudo da medicina chinesa através de suas fontes clássicas, o Livro do Imperador Amarelo o considerando como uma narrativa mítica, (um documento bruto ou descrição etnográfica realizada por membros de sua própria cultura, um modelo "feito em casa" nas palavras de Lévi-Strauss), ou melhor, utilizando os recursos da história e antropologia para seu entendimento. Trata-se de um ensaio explorando a possibilidade de comparar suas metáforas e símbolos, em especial a concepção de Chi (Qi - 氣), nas culturas mais próximas à China no ocidente da época em que foi escrito (200 aC.), o período que os historiadores denominam “antiguidade oriental”.

No presente texto, que é a segunda parte do projeto de estudo das concepções de energia vital, vida e saúde em aforismos e antigos provérbios médicos, da tradição oriental e ocidental, nos limitaremos à medicina hipocrática, o grande marco de início da atual medicina cosmopolita, científica e baseada em evidências. Integrando a clássica abordagem da etnomedicina que busca identificar as concepções de “doença”, “saúde”, “tratamento”, em diferentes culturas. Por se tratar de uma análise de aforismos e provérbios que muitas limitam-se à conselhos e recomendações de normas de comportamentos, nos aproximamos do que atualmente se denomina medicina comportamental ou psicologia da saúde para sua interpretação.

Segundo Wolpe (1981) embora o terapeuta comportamental moderno aplique deliberadamente os princípios de aprendizagem em suas operações terapêuticas, as prescrições terapêuticas envolvendo o comportamento são provavelmente tão antigas quanto a civilização.

Por outro lado sabe-se que é essencial a utilização dos recursos da etno – história para o entendimento de muitos dos aforismos hipocráticos, sem dúvida similares a prescrições comportamentais, e sabe-se também que na medicina comportamental pouco adianta conselhos genéricos, pois os hábitos tem que ser modificados como conquistas individuais, por uma aproximação sucessiva e transformação do comportamento atual.

Quanto as dificuldades de convencimento do paciente para mudanças de comportamento e certeza da prescrição, vale consultar o velho mestre:

A arte é longa e a vida é breve. a crise é passageira, a experiência perigosa e a decisão difícil. O médico deve estar preparado não só para saber o que é certo, mas também para praticar o que é certo e convencer os pacientes, atendentes e os outros de que o que ensina é o correto. (Aforismos 1/1)

Hipócrates e Galeno (Mural do séc. XII, Anagni / Itália)


Hipócrates e a energia vital

Hippokrátēs (Ippokráti̱s) em nascido entre 406 e 460 aC., em Cós, uma das “doze ilhas” (Dodecaneso) a 4 km da costa da Turquia. Nesta cidade deu continuidade à tradição da prática médica de sua família. Como médico (asclepiades do gr. Asklepias, nome de Esculápio - o Deus da Medicina). integrou-se a escola médica de Cós onde registrou uma forma própria de exercer a medicina, consolidando a tendência grega da época de dissociar a clínica médica das práticas mágico-religiosas dos séculos anteriores, o que lhe deu a fama de pai da medicina moderna. É comum entre seus biógrafos a afirmação que viajou por toda Ásia Menor (Anatólia). Há menos incertezas quanto a data e local de seu falecimento, em 370 - 377 a.C. na Tessália, a antiga Eólia (Aeolia; Αἰολία) situada ao norte da Grécia central. (Lyons & Petrucelli, 1997; Cairus & Ribeiro Jr. 2005)

A concepção grega de “energia vital” apesar de ter permanecido na medicina européia por séculos, constituindo-se como o vitalismo clássico, reafirmada pelas concepções de Samuel Hahnemann (1755-1843), o vitalismo homeopático, não é um conceito fácil de ser compreendido isolado de seu sistema original, envolve as relações do “pneuma” (fôlego), "physis" (natureza) e "dynamis" (atividade, potencialidade) (Luz, 1996; Rebollo, 2006). Tampouco é simples a sua comparação a concepção de Chi (Qi - 氣) da medicina chinesa.

As principais contestações da concepção de energia vital a partir das experiências de Friedrich Wöhler (1800-1882) de síntese da uréia a partir de amônia evidenciando a origem química (inorgânica) compostos orgânicos e Louis Pasteur (1822-1895) contestando as teorias de geração espontânea e revelando os microrganismos, devem ser analisadas no contexto do paradigma científico do século XIX e ascensão do capitalismo industrial, onde não havia mais lugar para o repouso, dietas, banhos e contato com a natureza encontrada nos templos/clínicas de Asclépio.

A utilização da antropologia médica por outro lado identifica na prática da acupuntura e medicina chinesa, advinda do conjunto multi-étnico da Ásia, (e na sobrevivência da homeopatia) a presença das medicinas antigas (especialmente grega ) re-unificadas "provisoriamente" como sugere Madel Luz por um “novo paradigma” vitalista.

Especialmente quanto a medicina chinesa coligida, como dito, no “Livro do Imperador Amarelo, o sinólogo Joseph Needham (1900 -1995) ressalta a semelhança entre este e o “corpus hipocraticus” que propõe uma divisão da matéria médica em funções normais e anormais do corpo humano e métodos de diagnose, prognose, terapia e regime. Ambos se referem à importância dos alimentos e elementos da natureza. Existindo também coincidências dos períodos clássicos de ambas as civilizações em torno de 500 aC. Ambos anteriores ao período Han quando, na China houve uma sistematização e divulgação da cultura clássica.

Emoções e elementos da natureza

Um dos aspectos mais intrigantes da comparação das medicinas grega e chinesa é a utilização mítica (metafórica) de elementos da natureza (água, fogo, terra, ar, madeira) e a importância que ambas atribuem às estações do ano e emoções humanas na relação ou processo saúde doença.

Para os chineses existe uma estreita relação entre a atividade emocional e os órgãos internos, mas não exclusivamente com o cérebro. Identificaram que as funções dos órgãos e vísceras dependem das funções de aquecimento e de impulsão e da nutrição do sangue, como se lê no “Suwen”...”o homem tem cinco órgãos que metabolizam as cinco energias e que produzem a alegria, a raiva, o pesar, a ansiedade e o medo”... e estas emoções, por sua vez, influenciam cada órgão e víscera. (Huihe, Baine, 2012)

O corpo humano, segundo os antigos gregos e conforme consta no texto hipocrático “Da natureza do homem” ...contém sangue, fleuma, bile amarela e negra; esta é a natureza do corpo, através da qual adoece e tem saúde”... Esses quatro humores, regulariam as emoções e mesmo o caráter (personalidade) dos indivíduos, segundo a predominância de um ou de outro desses fluidos classificando os homens como coléricos, fleumáticos, sanguíneos e melancólicos respectivamente. (Cairus, 2005; Cordás, 2002)

A melancolia, mania e a paranóia foram descritas nestes parâmetros de observação hipocrática. Sua descrição da melancolia (“melan”, negro; “cholis”, bile) ainda é utilizada ...um quadro clínico que envolve: “aversão à comida, falta de ânimo, insônia, irritabilidade e inquietação” ...”se o medo ou a tristeza duram muito tempo, tal estado é próprio da melancolia” (Cordás, 2002)

Atribui-se também a medicina hipocrática e à Alcméon de Crotona (região da Calábria) no século V a.C. a identificação do cérebro como órgão do pensamento. Lê-se no texto hipocrático “Da doença sagrada” ...”o cérebro (dentre todos os órgãos é o que) exerce o maior poder no homem. Pois ele, se acaso está são, é o nosso intérprete das ocorrências oriundas do ar, e o ar lhe proporciona a consciência”... (Cairus, 2005)

Não se pode dizer, entretanto, que os chineses não conheciam as propriedades e funções do encéfalo, diante da qualidade de suas descrições das emoções humanas, conhecimento de substâncias psicoativas e sobretudo capacidade de intervenção sobre a dor e outras funções orgânicas com as técnicas da acupuntura, como veremos.

Por ora nos limitaremos a descrição que a medicina hipocrática estabeleceu entre as estações do ano, emoções e saúde exatamente porque, a medicina chinesa também se estendeu sobre tais relações, sendo portanto comparáveis tal como Needham referiu.

É clássica a referência de reconhecimento das funções do encéfalo (εγκέφαλος enképhalos) no texto hipocrático “Da Doença Sagrada”:

É preciso que os homens saibam que nossos prazeres, nossas alegrias, risos e brincadeiras não provêm de coisa alguma senão dali (isto é, do cérebro), assim como os sofrimentos, as aflições, os dissabores e os prantos. E, sobretudo, através dele, pensamos, compreendemos, vemos, ouvimos e reconhecemos o que é feio e o que é belo, o que é ruim e o que é bom, o que é agradável e o que é desagradável, tanto distinguindo as coisas conforme o costume, quanto sentindo-as conforme o que for conveniente – e distinguindo dessa forma os prazeres dos desprazeres; de acordo com a ocasião, as mesmas coisas não nos agradam sempre. É também através dele que enlouquecemos e deliramos, e nos vêm os terrores, os medos, alguns durante a noite, outros durante o dia, e as insônias, os erros inoportunos, as preocupações inconvenientes, a ignorância do estabelecido, a falta de costume e a inexperiência. (“Da Doença sagrada” Cairus, 2005 p.76)


Observe-se porém que apesar da localização anatômica similar ao que pensamos hoje, a interpretação sua fisiologia era bem mais semelhante ao mundo das tradições chinesas que nosso. Ambas as tradições têm como agentes patógenos (ou terapêuticos): o frio; a umidade; o calor; a secura e seus efeito nos principais órgãos associados aos humores, ou seja o sangue, a bílis, o fleuma (linfa) e a antrabílis (bílis negra) respectivamente associados ao coração, fígado, cérebro e baço. (Dalgalarrondo, 2008)

O movimento ou circulação dos humores (ou do Chi - 氣) engendram emoções e as funções patológicas ou normais do corpo humano. Lê-se no citado texto “Da Doença Sagrada”:

A corrupção do cérebro é devida ao fleuma e à bile. Conhecerás as duas causas desta maneira: os que enlouquecem devido ao fleuma são pacíficos e não gritam, nem bramem. Mas os que enlouquecem devido à bile costumam berrar, e tornam-se furiosos e inquietos, sempre fazendo algo inoportuno. Se enlouquecem continuamente, essas são suas motivações; mas, se os terrores e medos se lhes afiguram, isso se deve ao deslocamento do cérebro, que se desloca quando aquecido, e ele se aquece devido à bile, quando se projeta sobre o cérebro através das veias sangüíneas procedentes do corpo. ...

...o cérebro, quando este não está saudável, porém torna-se mais quente do que sua natureza, ou mais frio, ou mais úmido, ou mais seco, ou sofre, contra a natureza, outra afecção que lhe é inabitual. Enlouquecemos devido à umidade; pois, quando se está mais úmido do que seu natural, é forçoso que se mova, e, movendo-se, nem permaneça estável a visão, nem a audição. Mas ora ouve-se e vê-se uma coisa, ora outra, e a língua expressa tais coisas como são ouvidas e vistas em cada circunstância. Durante o tempo em que o cérebro ficar estável, o homem estará consciente. ...(“Da Doença sagrada” Cairus, 2005 p.76)

Aforismos

Aforismo corresponde a palavra grega aphorismós (pelo lat. aphorismu) a uma regra, um princípio explicativo ou sentença moral breve e conceituosa segundo dicionários (Aurélio; Caldas Aulete). Com este tome “Aforismos” integra o “corpus hippocraticum” que é conjunto de cerca de sessenta seis tratados, acrescidos de um juramento que deveria ser prestado pelo médico da escola de Cós.

Observe-se em seguida alguns aforismos hipocráticos selecionados pelo tema estações do ano e emoções numa pretensa "homogeneização" para comparação de grandezas heterogêneas tais como as medicinas, semíticas, chinesas e gregas:

Estações do ano

As mudanças e estação engendram doenças, e nas estações grandes variações de frio e calor seguem a regra da mudança de estações. (3/1)

Uns temperamentos são mais bem dispostos ao verão, outros ao inverno (3/2)

Algumas doenças e idades tem bem ou mal adaptação para tal ou qual estação, tal ou qual lugar/ região, tal ou qual estilo de vida (3/3)

Durante as estações quando o calor e o frio se apresentam no mesmo dia alternadamente, ocorrem doenças do tipo de outono (3/4)

Quando o verão é parecido com a primavera as febres se acompanham de muitos suores (3/6)

O outono é nocivo aos afetados pela tísica (consumption) (3/10)

Na constituição do ano, o tempo seco é mais saudável que úmido e com menor mortalidade. (3/15)

Todas as moléstias podem ocorrer em todas as estações; porém algumas aumentam a freqüência e gravidade em alguma das estações. (3/19)

No verão preferencialmente purgar por cima; no inverno por baixo. (4/4)

As pessoas magras, que vomitam com facilidade devem ser purgadas por cima, porém com mais cuidado no inverno. (4/5)

As pessoas que tem dificuldade de vomitar, e bem nutridas, devem ser purgadas por baixo, porém com mais cuidado no verão. (4/6)

O frio é inimigo dos ossos, dos dentes, dos nervos, do cérebro, da medula espinhal, porém o calor lhes é benéfico. (5/18)

As coisas frias , tais como a neve e o gelo são inimigas do peito, provocam a tosse, as hemorragias e os catarros. (5/24)

Purgantes citados:
Heléboro (Helleborus cerca de 20 espécies da família das Ranunculaceaes). Segundo Rebollo são citadas pelos médicos do Corpus hippocraticum: a mandrágora, o cominho, o anis, o manjericão, o louro, a briônia, a centaurea, o trevo, o hipérico, a malva, a arruda, a sálvia, o cobre e o enxofre, bem como diversas substâncias de origem mineral, animal e vegetal com efeitos purgantes e não purgantes.

Dor, sinais, sintomas e emoções.

Pessoas que tem uma afecção dolorosa em qualquer parte do corpo, e estão em grande parte insensíveis a essa dor, estão mentalmente perturbadas. (2/6)

Os velhos tem menos queixas que os jovens; mas as doenças crônicas que os acompanham geralmente nunca os deixam (2/39)

Nem a fartura nem a abstinência, nem qualquer outra coisa é boa quando mais que o natural (2/4)

A dificuldade de dormir em qualquer doença é um sintoma perigoso. Caso contrário se dorme facilmente não há perigo (2/1)

Quando o sono põe fim a um delírio é um bom sintoma (2/2)

Tanto o sono como a sonolência em excesso são ruins (2/3)

O cansaço espontâneo indica doença (2/5)

De duas dores ocorrendo ao mesmo tempo em diferentes partes do corpo, a mais forte enfraquece a outra (2/46)

No movimento do corpo, quando se começa a sentir dor, o repouso afasta o sofrimento (2/48)

Na parte do corpo que aparece o suor, aí está a moléstia (4/38)

Na parte do corpo onde se manifesta o calor ou o frio, aí está a moléstia (4/39)

Se o medo ou a tristeza duram muito tempo, tal estado é próprio da melancolia (6/23)

Os tremores de febre ardente, passam após um delírio (6/23)

Os eunucos não ficam calvos nem gotosos (6/28)

Um rapaz não sofre de gota antes do início de ser sexualmente ativo. (6/30)

Os delírios de motivos alegres são mais benignos que os de motivos sérios (6/53)

O estupor ou delírio após traumatismo craniano são maus sinais (7/14)

Uma convulsão ou delírio com insônia é mau sintoma (7/18)

Quando há letargia, o tremor é mau (7/18a)

O choro que verte o doente com motivo é bom sinal, o choro sem motivo é mau sinal. (7/83)

PROVÉRBIOS E AFORISMOS RELATIVOS À NUTRIÇÃO / ALIMENTAÇÃO

Faz do alimento teu medicamento e do medicamento teu alimento.

Pessoas com saúde logo perdem suas forças quando tomam medicamentos purgativos ou comem alimentos ruins (2/36)

O corpo em crescimento tem um calor inato; requer portanto mais alimento para não enfraquecer. No velho calor é menos intenso, portanto requer menos combustível tal qual uma chama que seria extinta com muito. Do mesmo modo a febre em pessoas velhas não é tão grave quanto nas jovens exatamente porque seus corpos são mais frios. (1/14)

Uma dieta úmida é conveniente em todas as doenças febris, particularmente em crianças e em pessoas acostumadas a viver em tal regime (1/16)

Tudo que precisa ser evacuado deve ser evacuado pela vias adequadas (1/21)

As evacuações devem ser julgadas não só pela sua quantidade e sim se elas são como devem ser e como foram criadas. Quando necessário levar a evacuação ao " deliquium animi" cuidando que o paciente o suporte (1/23)

No início das doenças agudas use medicamentos purgativos espaçadamente e com a devida cautela (1/24)

Se a matéria for purgada como deve ser purgada, a evacuação é benéfica e facilmente tolerada caso contrário se tem dificuldades (1/25)

Os que tem o ventre relaxado quando moços, ficam constipados a medida que envelhecem; e ao contrário, quando constipados em moços, o ventre se relaxa a medida que envelhecem. (2/20)

Na maioria das vezes as pessoas com pouca saúde que tem inicialmente um bom apetite, mas não melhoram, acabam perdendo o apetite; enquanto que aquelas que no início tem bem pouco apetite e depois o adquirem ficam boas. (2/32)

Para concluir

Nesse artigo, alguns conceitos são necessários para entender o mundo de alegorias ao qual fomos remetidos como um determinado espaço entre mito (aqui considerado uma narrativa) e técnica enquanto duas dimensões do processo cognitivo. Sendo o primeiro relacionado ao processo criativo (intuição) e metáforas explicativas e o segundo à acumulação da experiência empírica.

A interpretação que poderá resultar da comparação de aforismos ou narrativas de diferentes culturas reunidos pelo nexo de pertencer, ao que pode ser descrito como, sistemas etnomédicos, ainda está por ser realizada. No momento o objetivo é compreender o aforismo enquanto uma descrição precisa dos sinais ou sintomas do processo saúde-doença e/ou uma prescrição análoga aos conselhos dos psicólogos da saúde ou medicina comportamental.

Posteriormente serão analisados as narrativas ou “prescrições comportamentais” da medicina chinesa equivalentes aos conjuntos de textos hipocráticos e/ou derivados de representações da ética/ moral judaico cristã (analisadas anteriormente como provérbios relacionados a medicina semítica, atribuídos ao Rei Salomão). Numa primeira análise pode-se afirmar que esta última (talvez pela fonte de pesquisa utilizada de natureza cristã - os referidos provérbios), ao contrário dos aforismos hipocráticos, enfatizam a relação com emoções e conduta, pouco ou nada referindo-se ao clima e estações do ano, apesar da clássica referência ao tempo e periodicidade cíclica da vida no Eclesiastes. A medicina chinesa propõem um equilíbrio entre os sentimentos emoções e estações do ano, como veremos na terceira parte deste ensaio.

A meta é o entendimento do enigmático Livro do Imperador Amarelo conhecido atualmente como Nei Jing (内經) atribuído a Huang Di (黃帝) escrito por um grupo de médicos do Período dos Reinos Combatentes 480-221 a.C. ou no séc. III a.C. na antiga China sob dinastia dos Han (漢朝) enquanto o fundamento da acupuntura e medicina tradicional chinesa.

Bibliografia

Cairus, Henrique F.; Ribeiro Jr. Wilson A. Textos hipocráticos, o doente, o médico e a doença. RJ FioCruz, 2005

Cordás, Táki Athanássios. Depressão: da bile negra aos neurotransmissores: uma introdução histórica. SP, Lemos Editorial, 2002

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre, Artmed, 2008

Hutchins, Robert M.; Adler, Mortimer J. (Eds.) Hippocrates writings, in Hippocrates Galen. Great books of the Western world. Encyclopaedia Britannica, INC. USA, Harvad Press, 1952

Hipocrates. Aforismos, antologia. (tradução Moraes, José D.) SP, Martin Claret, 2003

Hippocratic writings. On the natural faculties, by Galen. (tradução Sylvia Abreu). USA: Harvard University Press, 1952 

Huihe, yin; Baine, zhang. Teoria básica da medicina tradicional chinesa. (tradução Dina Kaufman). SP, Atheneu, 2012

Lévi-Strauss, C. Raça e História; Descontinuidades culturais e o desenvolvimento econômico, in Antropologia estrutural dois, RJ, Tempo Brasileiro, 1993

Luz, Madel T. Estudo comparativo das medicinas ocidental contemporânea, homeopática, tradicional chinesa e ayurvédica em programas públicos de saúde. RJ, UERJ, IMS, 1996

Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988

Lyons A. S.;Petrucelli, J. História da medicina. SP, Manole, 1997

Needham, Joseph; Gwei-Djen, Lu. Celestial lancets a history and rationale of acupuncture and moxa. USA, Cambridge University Press, 1980

Posadas, J. A medicina natural na Grécia clássica, Ascépio, a concepção de medicina dos gregos, as enfermidades e o socialismo. SP, Ed. Ciência Cultura e Política, 1983

Rebollo, Regina A. O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno. Sci. stud., São Paulo , v. 4, n. 1, p. 45-81, Mar. 2006. http://www.scielo.br/pdf/ss/v4n1/v4n1a02.pdf

Ronan, Colin A. História ilustrada da ciência da Universidade de Cambridge (4 V) vol I: Das origens à Grécia; vol II: Oriente, Roma e idade média. RJ, Zahar, 1987

Svoboda, R; Lade, A. Tao e Dharma, medicina chinesa e ayurveda. SP, Pensamento, 1998

Wolfgang Mieder. DE PROVERBIO. Electronic Journal of International Proverb Studies VOLUME 1 - Number 1 – 1995. URL: http://info.utas.edu.au/docs/flonta/

Wolpe, Joseph. Prática da terapia comportamental. SP, Brasiliense, 1981


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VER  TAMBÉM 

Aforismos antigos, provérbios e conselhos para controle das emoções e manutenção da saúde nas tradições das medicinas chinesa, grega e semítica

segunda-feira, 17 de março de 2014

Treinamento autógeno e auto-controle

O autocontrole numa perspectiva behaviorista da bio-realimentação corresponde à específicas respostas controladoras aprendidas progressivamente, tais como sinais / sensações corporais no caso de controle do tônus – muscular, além da seleção dos estímulos ambientais adequados, no caso as contingências associados ao aumento de tensão muscular. Segundo Burrhus Frederic Skinner (1904 - 1990) nenhum místico ou asceta deixou de controlar o mundo em seu redor, controla-o para controlar a si mesmo ainda que seja escolhendo um estilo de vida próprio pois, segundo Skinner, não podemos escolher um gênero de vida no qual não haja controle, podemos tão só mudar as condições controladoras. (Skinner, 2006)

O desafio permanece sendo o domínio das emoções e do corpo, atividades autonômicas ou seja atividades que hoje sabemos reguladas pelo sistema nervoso autônomo, especialmente nas complicações classificadas como distúrbios psicossomáticos. O primeiro passo é compreender o processo de bio-realimentação as respostas emitidas para as informações que recebemos sobre o funcionamento de nossos órgãos internos, tais como coração, glândulas, músculos e cérebro, como por exemplo, sudorese, frequência cardíaca, etc. (Stern; Ray, 1978)

Observe-se contudo, como pondera o próprio Skinner (2003) ao dar ênfase ao poder controlador das variáveis externas, deixamos o organismo em uma posição peculiarmente desamparada limitado ao que parece ser apenas um "repertório" (um inventário de comportamentos ou etograma diriam os etólogos) de ações mais ou menos prováveis, à medida que o ambiente se altera. Por outro lado reconhece-se a “liberdade”, livre arbítrio ou certo grau de "autodeterminação" da conduta, ao menos como cita Skinner no comportamento criador do artista, do cientista, no comportamento auto-exploratório do escritor, na autodisciplina do asceta ou, com freqüência, quando a resposta de um indivíduo tem conseqüências que provocam conflitos, ou seja, quando tem como contingência tanto a reforço positivo quanto a negativo (uso do tabaco por exemplo),

Sabemos também que as reações e comportamentos se estruturam em hábitos (atos automatizados por causa do reforço) e que, por outro lado, um comportamento apresentado em qualquer momento, está sob controle de um cenário atual. Nessa perspectiva podemos compreender o comportamento voluntário como um conflito entre tendências de ação associadas à distintos conjuntos de estímulos.

Segundo Skinner, 2003, o indivíduo vem a controlar parte de seu próprio comportamento quando emite uma resposta controladora que pode manipular qualquer das variáveis das quais a resposta controlada é função; uma resposta, a controladora, afeta variáveis de maneira a mudar a probabilidade da outra, a controlada. Sabemos pois que o organismo pode tomar a resposta punida menos provável alterando as variáveis das quais é função. Qualquer comportamento que consiga fazer isso será automaticamente reforçado. Denominamos autocontrole estes comportamentos.

O psiquiatra berlinense Johannes Heinrich Schultz (1884-1970) em seu método treinamento autógeno propõe tomar a vivência de peso como ponto de partida, senão outra condição psicofisiológica para controle inicialmente do tônus muscular e progressivamente da demais funções fisiológicas circulação, batimentos cardíacos, respiração, sistema metabólico endócrino, funções iônicas e viscerais (efeito analgésico), reações vegetativas e estados da consciência (na maioria das técnicas iogues associadas ao jejum e controle da respiração).

Segundo esse autor se num esquema simples imaginarmos o corpo, com seus sistemas funcionais, animado de uma consciência do eu, podemos perguntar quais de ditos sistemas estão mais estreitamente unidos com este eu esquemático. A ordenação torna-se muito clara, segundo ele, Junto ao centro fictício do eu está a musculatura esquelética, cuja função habitual nos transmite a impressão errônea do movimento voluntário. Segue-o o sistema circulatório, que todavia está em relação direta com as vivências do eu. Menos direta é já a relação do eu com os fenômenos vegetativos gerais, tal como nos mostra a observação diária, a clínica e a experiência. A relação mais afastada se estabelece com o sistema de sustentação esquelética. Este escalonamento podemos representar graficamente mediante uma série de círculos concêntricos em volta do centro fictício do eu. (Shultz, 1967 p. 69)


Possibilidades de domínio do "Eu-Corpo" (imagem modificada Shultz, 1967)

J. H. Shultz considera esse esquema (apresentado na figura) como provisório substituindo-o também em representações gráficas por uma sucessão de círculos que parte do Eu (sempre de dentro para fora) para sistema nervoso central (leia-se atualmente na neurofisiologia moderna córtex ou lobo frontal, centros da linguagem e sistema reticular ativador) e em seguida para um nível de autocontrole do sistema neurovegetativo e daí para componentes químicos e iônicos coloidais cujo efeito mais visível e imediatamente verificável é a analgesia induzida por auto-hipnose e/ou a redução da atividade metabólica.

Naturalmente que são muitas as formas de se conseguir a auto-determinação, seja do estilo de vida, controle do mundo externo ou relação consigo mesmo. As intervenções da biomedicina consideram por exemplo a possibilidade de intervenção em cada aparelho, sistema ou função orgânica, privilegiando intervenções químico/farmacológicas ou anatômicas (cirurgia bariátrica por exemplo). As possibilidades ampliação dos sinais internos pelas técnicas eletrônicas do biofeedback (biorealimentação) condicionamento pavloviano dos órgão internos (bastante divulgado pela técnica do parto sem dor), apesar da plausibilidade e sucesso, ainda permanecem incipientes em nosso meio.

Entre as medicinas complementares destacam-se a medicina ayurvédica especialmente o Yoga, e a acupuntura (shiatsu, do-in) com resultados práticos evidenciáveis, apesar dos aspectos não compreendidos face a barreira dos idiomas e culturas no âmbito das explicações teóricas . Uma integração entre essas diversas técnicas é o que se vê na prática e formação dos diversos profissionais de psicoterapia que atuam, ensinando, tratando, respondendo ao desafio do autocontrole.

Referências

Schultz, J.H. O treinamento autógeno, (1932). SP, Mestre Jou, 1967

Skinner, Burrhus Frederic. Sobre o behaviorismo. SP, Cultrix, 2006.

Skinner, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. SP, Martins Fontes, 2003.

Stern, Robert, M; Ray, William, J. Bio-realimentação e o controle das atividades físicas internas. SP, Brasiliense, 1978


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica.

Esse trabalho faz parte de um estudo da medicina chinesa através de suas fontes clássicas, o Livro do Imperador Amarelo considerando esse como uma narrativa mítica, (um documento bruto ou descrição etnográfica realizada por membros de sua própria cultura, como um modelo "feito em casa" nas palavras de Lévi-Strauss), ou melhor, utilizando os recursos da história e antropologia para seu entendimento. Trata-se de um ensaio explorando a possibilidade de comparar suas metáforas e símbolos, em especial a concepção de Chi (Qi - 氣), nas culturas mais próximas à China no ocidente da época em que foi escrito (200 aC.), o período que os historiadores denominam “antiguidade oriental”.

No presente texto que é a parte inicial do projeto de estudo das concepções de energia vital, vida e saúde em aforismos e antigos provérbios médicos, da tradição oriental e ocidental, nos limitaremos aos semitas o grupo linguístico composto por uma família de vários povos, onde se incluem os árabes e hebreus. Integrando a clássica abordagem da etnomedicina que busca identificar as concepções de “doença”, “saúde”, “tratamento”, enfatizando (algumas vezes com interesses escusos da bioprospecção de fármacos) o uso de plantas medicinais. Por se tratar de uma análise de aforismos e provérbios que muitas limitam-se à conselhos e recomendações de normas de comportamentos, nos aproximamos do que atualmente se denomina medicina comportamental ou psicologia da saúde para sua interpretação. Por outro lado sabe-se que é essencial a utilização dos recursos da etno – história para o entendimento dos mesmos e que na medicina comportamental pouco adianta conselhos genéricos, pois os hábitos tem que ser modificados como conquistas individuais, por uma aproximação sucessiva e transformação do comportamento atual.

Considerando que a função do antropólogo é possibilitar o entendimento entre os povos e combater o racismo (intolerância) e, no nosso caso específico entender a relação da narrativa simbólica do Imperador Amarelo com suas metáforas, tomou-se como referência os estudos dos aforismos e provérbios médicos, uma estratégia já utilizada por Hipocrates (460 a.C - 370 a.C) e que permaneceu em uso na medicina pelo menos do século 4 a.C. ao século 17.

O oriente é um modo de ver ocidental de um conjunto de povos da Ásia e Norte da África. Os textos sobre esse tema incluem as civilizações Egípcia, Chinesa, Indiana e dos povos semitas (Caldeus, Assírios, Árabes, Persas e Judeus). Naturalmente que estes povos podem ser subdivididos em centenas de nações, etnias, e sistemas etnomédicos. No presente texto, como referido, tomamos como parâmetro a medicina hebraica antiga como representante dos povos de língua semítica ou camito-semítica, uma família étnica e lingüística, originária da Ásia ocidental.

Contudo, as "lacunas" de informação para integrar o que supomos ser um sistema etnomédico ou seja um conjunto de práticas e crenças para recuperação e manutenção da saúde, foram "preenchidas tomando de empréstimo referências de povos de língua e cultura semelhantes. Considerando que fazem parte de uma mesma família lingüística e habitam uma mesma região é bastante plausível que a medicina hebraica antiga seja similar por sua inter-relação com as crenças e práticas da medicina do Egito e Babilônia (acadianos e assírios - povos dos quais os judeus ou hebreus também foram escravos) assim como dos Árabes pré islâmicos especialmente Persas (Irã), Assírios (Iraque); Fenícios (Líbano) e de alguns dos demais povos da região da mesopotâmia (Sumérios e Acádios).

Consta que o apogeu do conhecimento e expansão dos Hebreus veio com a reunião das tribos de Israel (Rúben; Judá; Levitas, Simeão; Benjamitas; Manasses, Efraim (Jose); Zabulon; Gade; Issacar (Jesurum); Dã; Aser (Gênesis 49; Deuteronômio, 33; Reis 4:1) e demais povos ...desde o Rio (Eufrates) até a terra dos filisteus e até a fronteira do Egito (Reis:5:1) por Salomão após monarquia estabelecida por Saul / David cujo apogeu e dimensão cosmopolita (expansão) correspondem ao reinado de Salomão (966 - 926 aC.).

Hipótese que pode ser avaliada pela extensão da rede de comunicação do império na história dos navegadores da época, especialmente Fenícios, se não quisermos considerar as lendárias referências ao conhecimento desse rei que possuía... ”um coração sábio e inteligente como ninguém, antes e depois dele”... (1 Reis, 3:12)

No próprio texto bíblico há referências às técnicas de navegação da época:

1Reis, 10:22 Com efeito o rei tinha no mar uma frota de Társis com a frota de Hiram e de três em três anos a frota de Társis voltava carregada de ouro, prata, marfim, macacos e pavões.

Segundo nota do tradutor da Bíblia de Jerusalém (École Biblique de Jerusalém) Társis pode ser traduzido como navios de grande porte e é uma possível referência à colônia fenícia de Tartessos na Espanha ou à “fundição” e navios que serviam à exploração de minério. Quanto aos registros da navegação fenícia estudiosos estimam que cobriram vastas distâncias desde as costas do norte da África e todo o sul da Europa, a Itália, a Inglaterra (ilhas do Estanho), as ilhas de Chipre o mar Negro, até o litoral atlântico da África, continente que circunavegaram a serviço do faraó Necau II em 594 aC., chegando até atravessar o oceano Atlântico e vir na América do Sul e Central, há indícios que vieram ao Brasil e que influenciaram as culturas Inca e Asteca. Há quem suponha por análise etimológica que o nome do rio Solimões seja uma derivação nome Salomão.

Os Fenícios já eram influentes por volta do ano 2000 a.C., mas seu poder cresceu com Abibaal (1020 a.C.) e Hirã (aliado de Salomão). Sidon, Biblos e Tiro (Líbano), as três mais importantes cidades fenícias foram sucessivamente capitais de um império comercial de cidades unidas, antes pelos interesses, costumes e religião, do que por uma estrutura política mais rígida de grandes cidades.

Outra evidência do elevado nível de civilização do período salomônico são as referências ao templo construído nesse período e seus construtores maçons (que literalmente significa pedreiros). Esse templo foi destruído pela primeira vez por volta de 536 aC. mas ainda restam suas ruínas – o famoso muro das lamentações, e as referências ao seu arquiteto Hiram Abi(f) (1Reis, 5:15) da tribo Naftali (1Reis, 7:14), seu assassinato e posterior organização da maçonaria nesse período. Segundo alguns autores dando continuidade à vivência de construções nas pirâmides e prédios no Egito, mantida e desenvolvida entre os Hebreus a partir de Moisés.

Observe-se que o empirismo da tecnologia da engenharia de construções, tomado como símbolo da organização (compasso e esquadro) é associado aos princípios éticos e religiosos do culto ao Grande Arquiteto Universal nessa sociedade que sobreviveu até os nosso dias. A influência dessa sociedade no processo histórico da organização social das nações e países é controvertido pelo caráter secreto da organização contudo, na perspectiva da saúde pública (direito à saúde) é notável a presença de seus princípios de “liberdade, igualdade e fraternidade” nas constituições e leis de todo o mundo a partir da revolução francesa.

Plantas medicinais, matéria médica da medicina semítica

Apesar do nosso interesse no presente texto ser a identificação de prescrições comportamentais, dietéticas e relativas aos conceitos de emoções e saúde não é possível isolar estas das demais concepções da arte médica. Em função dessa contextualização reunimos algumas informações relativas à terapêutica que também é inerente a concepção do processo saúde doença, sua reabilitação e manutenção.

Na Bíblia há algumas referências inespecíficas a diversos óleos, gomas e essências. Entre as descrições específicas está a planta indiana Sândalo (inclusive à variedades raras (1Reis 10:12) e a Oliveira, de onde vem o azeite de oliva, a grande fonte das lipoproteínas de alta densidade (High Density Lipoprotein - HDL) responsável por remover colesterol e o transportar seguramente ao fígado. Consta que o rei Salomão falou das plantas desde o cedro (Cedrela ?), que cresce no Líbano até o hissopo (Hyssopus officinalis) que sobe pelas paredes (1Reis, 5:13).

Para se ter uma idéia da farmacopéia utilizada na medicina hebraica podemos recorrer ao exame dos inventários e plantas medicinais dos demais povos semitas, que atingem a ordem de centenas, reafirmando sua dimensão de intercâmbio cosmopolita e padrão cultural dessa região, onde se conquistou o pastoreio, a irrigação, a metalurgia, e até hoje se distingue por sua belicosidade. O inglês R. C. Thompsom, um dos decifradores da escrita cuneiforme identificou 250 plantas no herbário assírio em 1924, entre os resultados de seus estudos de mais de 20 anos sobre dos textos médicos da Assíria (hoje Iraque). (Thorwald)

Entre as plantas medicinais importadas e autóctones da região da Mesopotâmia (região dos rios Tigre e Eufrates) se incluem: (da farmacopéia comum ao Egito) mirra (Commiphora), papoula (Papaver), mandrágora (Mandragora), meimendro (Hyoscyamus niger), salgueiro (Salix), amoreira (Morus), louro (Lauráceas), incenso, açafrão (Crocus sativus), cominho (Cuminum cyminum), zimbro (Juniperus), colcíntida, tamaricácea, loto, junco, alho (Allium) e cebola (Allium cepa) além de substancias de origem mineral (alume, enxofre, betume, argila) e animal (excrementos, órgãos). Entre as não registradas na Mesopotâmia, encontradas apenas no Egito, inclui-se os primeiros registros da beladona (Solanum) para controle da cãibra, secreção de líquidos, espasmos, cólicas, reconhecendo inclusive seu efeito em grandes doses de provocar delírios e perda de consciência; e o conhecido cânhamo indiano (quunabu / Cannabis). Entre plantas não identificadas estão: plátano, buxo buxeiro, choupo do Eufrates, mirábolano e outras. (Thorwald; Ronan) De acordo com Lyons;Petrucelli os agentes terapêuticos eram utilizados por via oral, aplicados em ungüentos e fomentações (fricção na epiderme), introduzidos em supositórios e enemas ou inalados como vapores e fumigações.

Há referências bíblicas, no Eclesiástico - livro atribuído ao escriba Ben Sirac, por volta de 190-180, no estilo das coleções de provérbios, Eclesiastes e Deuteronômio à utilização de símplices – (extratos ?) ingredientes da composição ou o próprio medicamento (segundo o Aurélio do lat. simplices, ‘simples’) a saber:

38:4. Da terra o Senhor criou os símplices, o homem sensato não os menospreza.
38:5 As águas não foram adoçadas com um lenho pra mostrar assim sua virtude? (lenho em botânica refere-se ao principal tecido de sustentação e condução da seiva bruta nos caule)
38:7 Por eles (os símplices) ele curou e aliviou, o farmacêutico fez com eles misturas.

Um detalhe interessante das composições farmacológicas e prescrições da mesopotâmia até hoje observada nos sistemas etnomédicos é a preferência por números mágicos (o “3” e o “7” e seus múltiplos eram os favoritos) para prescrição ou adição de constituintes em suas formulações (Ronan) ainda presente nas conhecidas “garrafadas" de uso na medicina popular brasileira.

Na medicina hebraica, propriamente dita ou na Bíblia não há referências diretas à cirurgias, exceto no se refere ao rito da circuncisão, herdado talvez dos egípcios, além das referências à parteiras sem descrições mais específicas da obstetrícia. (Lyons;Pertucelli). Na perspectiva do conhecimento dos povos semitas, entre os instrumentos cirúrgicos (da Mesopotâmia) encontravam-se agulha de bronze para cirurgia (picada) da catarata (reclinação do cristalino); cateter curvo para tratamento da blenorragia (upu) e um bisturi de dois gumes. Há registros de sangrias, trépano entre os materiais cirúrgicos e a um crânio encontrado com sinais de recuperação pós-trepanação na região da Judéia, referências à amputação com serras, e ajuste de fraturas com recuperação. (Thorwald; Lyons;Petrucelli)

No espectro das patologias identificam-se vários “demônios” causadores de doenças para exorcismos e registros escritos do tratamento específicos de doenças identificadas como: Gastrite; Oclusão intestinal; Distúrbios biliares, Apoplexia; Otite; Blenorragia; Afecções renais e da bexiga. Nergal o deus mesopotâmico das epidemias ou Baal-Seub o deus mosca filisteu/fenício eram representados por um inseto semelhante à mosca, já reconhecida como praga junto com os mosquitos. Há registro da associação entre epidemias de peste bubônica e a mortandade de ratos. (Thorwald)

De acordo com Lyons/ Petrucelli havia diferenças importantes entre as concepções hebraicas e assírias (assim como entre qualquer outros grupos semitas, naturalmente) embora ambos supusessem uma causa sobrenatural. Os judeus de antes das concepções medievais da Cabala, Jeová (YHWH - יהוה), o próprio Deus era o único possuidor e doador da saúde e somente ele deveria ser aplacado ou invocado para sua recuperação. Essa concepção aproxima os hebreus da medicina chinesa e grega que antes de buscar a identificação de entidades patológicas procura a explicação no equilíbrio das forças da natureza, a sintonia com a harmonia da energia universal (Tao - 道) expressa ou manifesta no comportamento humano. Observe-se que inclusive nos textos médicos do Talmude há referências diretas às teorias gregas que atribuíam as enfermidades ao desequilíbrio dos quatro humores.

Ainda segundo os citados autores, o contágio das doenças não era explicado como resultado da transferência dos espíritos malignos do indivíduo enfermo para o indivíduo são, mas como um sinal da impureza espiritual. Segundo eles as normas de higiênicas eram seguidas mais por razões de disciplina e religião do que por motivos médicos, identificaram normas extensivas a todas as atividades: isolamento do enfermo; tempo e lugar do sepultamento; freqüência das relações sexuais; o ato de lavar-se antes das refeições, banhos após o coito e menstruação, sacrifício de animais e preparação de alimentos. Entre os Árabes mesmo pós islamismo, como pode ser lido no Alcorão, são também comuns as recomendações de banhos com água ou com terra limpa (tayamum) antes das orações ou nas condições de impureza.

Sabe-se entretanto que são difusos os limites de conservação e recuperação da saúde e religiosas nos sistemas etnomédicos. Um dos termos equivalentes à médico na Babilônia é Asu – ‘aquele que conhece a água” a quem cabe os tratamentos medicamentosos e cirúrgicos relativamente distinto do adivinho e exorcista (baru e ashipu). Entre os hebreus o médico profissional – Rhophe (רופא) eram escolhidos entre os pertencentes a tribo sacerdotal dos Levitas. (Thorwald, Lyons; Petrucelli)



Visões do Rei Salomão - Ari Roussimoff

Provérbios do Rei Salomão

Amor próprio (auto-cuidado)

Até quando os ingênuos amarão a ingenuidade, os insensatos desejarão as coisas que lhes são nocivas e os imprudentes vão ignorar a ciência. 1:22

Não sejas sábio a seus próprios olhos, teme afastar-se de Iahweh e livre-se do mal; Isto será saúde para teu umbigo (carne) e refrescante (refrigério) para teus ossos. 3:7; 3:8

Deixai a infância (ingenuidade) e andai pelos caminhos da prudência (inteligência). 9:6

A sabedoria aumentará o número dos teus dias e acrescidos serão novos anos a sua vida. 9:11

O homem misericordioso faz bem a si mesmo, o homem cruel destrói sua própria carne. 11:17

Há quem tenha a língua como espada, mas a língua dos sábios cura. ou Quem fala o que não sabe (ao acaso) fere como uma espada, mas as palavras dos sábios trazem saúde. 12:18

Não existe riqueza que valha mais que um corpo sadio, nem maior satisfação do que a alegria do coração. Eclesiástico, 30:16

Amor conjugal

Encontrar uma mulher é encontrar a felicidade, é obter um favor de Iahweh. 18:22

Melhor é morar no canto de um teto do que junto com uma mulher briguenta (queixosa) 21:9

Feliz do marido que tem uma mulher excelente, o número de seus dias será dobrado. Eclesiástico, 26:1

Mas a mulher ciumenta causa ao coração sofrimento e aflição e o flagelo da língua é tudo isso acumulado. Eclesiástico, 26:6

Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos e a glória (honra) dos filhos são seus pais 17:6(2)

Raiva

A resposta branda quebra a ira, a palavra dura abrasa a raiva 15:1

Mais vale um homem lento para ira do que um herói, e um homem senhor de si do que um conquistador de uma cidade. 16:32

Um homem sábio sabe domar sua cólera e sua honra consiste em passar por cima de uma ofensa 19:11

O insensato desafoga toda sua ira mas o sábio a domina e transforma 29:3

O homem sobre o qual pesa o sangue de outro fugira até o fosso, nada (ninguém) o detém. ou Um homem culpado de assassínio fugirá até o túmulo: não o segurem! 28:17

Alegria

Coração alegre, face serena, o coração aflito abate o espírito. ou O coração alegre faz a face serena e a tristeza na alma (o coração ferido) abate o espírito 15:13

O olhar bondoso alegra o coração, a boa reputação reanima forças (mantém o corpo). 15:30

As palavras amáveis são um favo de mel, doces para o paladar (garganta) e força para os ossos (saudáveis para o corpo). 16:24

Melhor sofrimento que riso. Pois em rosto amargo há coração largo. (Eclesiastes, 7:3)

Preocupação

A insônia por causa da riqueza consome a carne, a sua preocupação afugenta o sono. Eclesiástico, 31:1

As preocupações do dia a dia não deixam dormir e mais do que uma doença grave tiram o sono. Eclesiástico, 31:2

O homem propõe e deus dispõe. ou Ao homem os projetos do coração, de Iahweh a resposta na língua. 16:1

Melancolia / desânimo

Coração alegre, corpo contente; espírito abatido ossos secos. 17:22

O espírito do homem pode aguentar a doença, mas o espírito abatido quem o levantará? 18:4

A beleza dos jovens é o seu vigor e o enfeite dos velhos, suas cãs (cabelos brancos) 20:29

Melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa onde a festa. Eis que esse é o fim de toda gente. E o vivente que o tenha presente no coração. Eclesiastes, 7:2.

Coração de sábio do casa do luto e coração de estulto na casa do prazer. Eclesiastes, 7:4.

Não ames o sono, porque ficarás pobre, fica de olhos abertos e te saciarás de pão. 20:12

Anda, preguiçoso, olha a formiga, observa o seu proceder, e torna-te sábio 7 sem ter um chefe, nem um guia, nem um dirigente, no verão acumula o grão e reúne provisões durante a colheita. Eclesiastico 6:6

Ansiedade / medo

O justo escapa da angústia, o ímpio ocupa o seu lugar. 11:8

A angustia do coração deprime, uma boa palavra reanima. 12:22

A habilidade é a coroa dos sábios a loucura dos imprudentes. 14:24

O leão está sem terror, o errado foge sem que ninguém o persiga. 28:1

Nobre coroa são os cabelos brancos (cãs), elas são encontradas no caminho da justiça. 16 :31

A sanguessuga tem duas "filhas": Traz, Traz! Três coisas são insaciáveis e uma quarta jamais diz basta. 30:15

_______________________________

Nota: a divisão dos provérbios referentes à emoções em: Raiva (怒 nù); Alegria (喜 xǐ ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si); Melancolia/ tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Ansiedade (忧 yōu) / Medo (恐 kǒng), corresponde à classificação chinesa dos 5 elementos e cinco emoções/sentimentos que lhes correspondem nas cinco estações do ano. [ ver: O movimento das cinco estações ]


PROVÉRBIOS E AFORISMOS RELATIVOS À NUTRIÇÃO / ALIMENTAÇÃO

O justo come e se farta, o ventre dos ímpios passa fome. 13:25

A fome do operário trabalha para ele, porque sua boca o estimula. 16:26

Encontraste mel? come o suficiente para que não fiques enjoado e o vomites. 25:16

Garganta saciada despreza o favo de mel, garganta faminta acha doce todo amargo. 27:7 dito popular derivado: O melhor tempero é a fome.

Mais vale um pouco de legumes oferecido com amor do que um boi cevado, com ódio. 15:17 versão nordestina de cantador: Mais vale uma xícara de café com amor do que um prato completo de má vontade.

Melhor um naco de pão seco com tranqüilidade que uma casa cheia de carnes de sacrifício com discórdia. 17:1

Não sejas ávido de toda a delícia, nem te precipite sobre iguarias, porque na alimentação demasiada está a doença e a intemperança provoca cólicas. Eclesiastico, 37:29


Do Alcorão

3. Estão-vos vedados: a carniça, o sangue, a carne de suíno e tudo o que tenha sido sacrificado com a invocação de outro nome que não seja o de Deus; os animais estrangulados, os vitimados a golpes, os mortos por causa de uma queda, ou chifrados, os abatidos por feras, salvo se conseguirdes sacrificá-los ritualmente; o (animal) que tenha sido sacrificado nos altares. Também vos está vedado fazer adivinhações com setas, porque isso é uma profanação. Hoje, os incrédulos desesperam por fazer-vos renunciar à vossa religião. Não os temais, pois, e temei a Mim! Hoje, completei a religião para vós; tenho-vos agraciado generosamente sem intenção de pecar, se vir compelido a (alimentar-se do vedado), saiba que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

4. Consultar-te-ão sobre o que lhes foi permitido; dize-lhes: Foram-vos permitidas todas as coisas sadias, bem como tudo o que as aves de rapina, os cães por vós adestrados, conforme Deus ensinou, caçarem para vós. Comei do que eles tivessem apanhado para vós e sobre isso invocai Deus, e temei-O, porque Deus é destro em ajustar contas.


Para concluir

Nesse artigo, alguns conceitos são necessários para entender o mundo de alegorias ao qual fomos remetidos como um determinado espaço entre mito (aqui considerado uma narrativa) e a técnica, enquanto duas dimensões do processo cognitivo. Sendo o primeiro relacionado ao processo criativo (intuição) e metáforas explicativas e o segundo à acumulação da experiência empírica.

A interpretação que poderá resultar da comparação de provérbios de diferentes culturas reunidos pelo nexo de pertencer ao que se pode denominar como sistemas etnomédicos, ainda está por ser realizada. No momento o objetivo é compreender o provérbio enquanto uma prescrição comportamental análoga aos conselhos dos psicólogos da saúde ou medicina comportamental e nesse sentido o provérbio, por assim pertencer a essa categoria narrativa "provérbio" (do lat. proverbiu - máxima ou sentença de caráter prático e popular), deveria ser , e alguns o são, suficientemente claros em um determinado sentido, que no caso é a preservação e/ou recuperação da saúde, pelo que consistiu a tarefa dessa seleção.

Notável também é a semelhança com as “prescrições comportamentais” que fazem parte do conjuntos de textos hipocráticos, do Livro do Imperador Amarelo e dos aforismos médicos da idade média - renascença européia, que serão apresentados posteriormente. Tal semelhança é devida possivelmente por analogias na estrutura conceitual referente à energia vital e elementos – símbolos explicativos da fisiologia ou relação entre a energia vital e o corpo embora na medicina hebraica os avanços da anatomia e fisiologia vieram posteriormente, e por assimilação(?) (ver Talmude) da medicina grega onde as referência à órgãos e doenças são explícitos. A plena concordância sem dúvida é a relação entre o processo saúde – doença e o estilo de vida, conduta ética e emoções.

Contradições internas podem ainda ser devidas à tradução e ou adaptação da cultura oral à escrita, sobretudo nas referências ao Rei Salomão, já que, como reconhecido na Bíblia, não foram escritos por ele, mas o tomaram como referência. Quanto ao corpus hipocrático há também contestações de autoria quanto a alguns textos como veremos.


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quinta-feira, 8 de março de 2012

Algumas considerações sobre prescrição de psicofármacos por psicólogos.

Há muito que se sabe da importância das emoções no tratamento dos distúrbios psicossomáticos. Sabe-se também que existem diversas maneiras de obtenção do autocontrole ou desenvolvimento da inteligência emocional, a inteligência intra-pessoal (auto-conhecimento) e inter pessoal (atenção aos sentimentos de outras pessoas) na concepção de Howard Gardner, desde a psicoterapia, técnicas de meditação e relaxamento (treinamento autógeno), acupuntura, até a utilização de psicofármacos.

Psicanalistas e psicólogos das mais diversas formações teóricas lidam com a expressão e crises emocionais de seus clientes, essa é a sua especialidade, contudo lhes é vedado a utilização de psicofármacos, mesmo os que a cultura popular e medicina tradicional, há milhares de anos, utiliza. A exemplo do Alface, Camomila; Capim santo, Erva cidreira, Melissa; Hipérico (Erva de São João), Kawa-kawa; Morinda, Mulungu, Lavandula; Valeriana; Flor de laranja, Casca preciosa etc.

Se nós estendermos a concepção de plantas calmantes e sedativas à plantas com propriedades de intervenção no sistema nervoso autônomo, incluiremos ainda: Beladona (Atropa belladona); (Hyoscyamus niger); Duboísia(s) (a corticeira da qual se extrai butilbrometo de escopolamina); Datura stramonium e outras Daturas; Noz moscada (Myristica fragans) Lobelia inflata; Noz de areca (Areca catechu) e muitas outras. Algumas já foram incluídas na medicina homeopática e outras fazem parte de tradições populares mais ou menos conhecidas.

A própria medicina homeopática e florais de Bach são técnicas com ampla aplicação à distúrbios das emoções e comportamento das quais o psicólogo, por motivos diversos também está excluído.

Observe-se que já existem inúmeros psicólogos com especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado na área farmacológica no Brasil, e que se cogita a criação de uma nova profissão o "terapeuta especialista em dependência química" (além do agente de redução de danos), e que psicólogos também já atuam como especialistas nesse tratamento da drogadicção há muito tempo, mas, mesmo assim, não lhes é permitido prescrever sequer adesivos ou chicletes de nicotina (medicação de comércio livre) na “terapia de substituição” no tratamento do tabagismo.

Observe-se também que está em discussão no Brasil e em outros países a utilização medicinal da Cannabis sativa e ou sua liberação para uso recreativo (com alteração da legislação tolerante ao consumidor) que necessita ser devidamente acompanhado para que seus usuários não venham desenvolver o uso prejudicial ou dependência, do mesmo modo que os 10% da população de cerca de 70 % de usuários de álcool (etanol). Aliás, estes também necessitam de auxílio para controle de seu uso prejudicial ou dependência, o "alcoolismo". Além do que, dezenas de plantas psicoativas já são utilizadas pela população brasileira (e de outros países) em rituais indígenas e religiosos derivados ou inseridos na cultura tradicional.

Assim sendo como não ampliar o conhecimento e controle dessas práticas? Concordando com o recente artigo de Landeira-Fernandez e Cruz (publicado no Cérebro & Mente), é importante que o psicólogo tenha também uma boa formação na área biológica, principalmente em relação à farmacologia do sistema nervoso e que esse conhecimento também seja objeto da sua atuação clínica.

Ressalte-se também que dado a complexidade do conhecimento médico e riscos de utilização, pode ser estabelecido critérios de uso restrito por protocolos de indicação do neurologista e psiquiatra, além de limitar a prescrição do psicólogo e mesmo do médico clínico, a uma prescrição supervisionada pelos referidos especialistas, com restrição ao uso de grupos específicos de medicamentos (devidamente protocolados). Observe-se que tal forma de controle já acontece com algumas medições nos programas de atenção à doenças crônicas (hipertensão e diabete) e doenças transmissíveis na prática de saúde pública.

Assim sendo, talvez já passe da hora de se realizar uma revisão tanto na formação do médico (com mais de 60 especialidades) como dos paramédicos, com uma atenção especial ao profissionais de saúde que lidam com a saúde mental.

Ver também

Psychologists and Prescription Privileges: A Conversation (Part One)
http://www.psychologytoday.com/blog/the-new-psychiatry/201003/psychologists-and-prescription-privileges-conversation-part-one

Drug Wars: The Siren Call of Prescription Privilege
http://www.psychologytoday.com/blog/evil-deeds/201004/drug-wars-the-siren-call-prescription-privilege

Psychiatry benefits when psychologists prescribe drugs http://www.kevinmd.com/blog/2010/04/psychiatry-benefits-psychologists-prescribe-drugs.html

THE GREAT PSYCHOLOGY PRESCRIPTION DEBATE http://psychcentral.com/archives/n071498.htm Desativado em 2023 ver:
https://www.researchgate.net/publication/232448789_A_Debate_on_Prescription_Privileges_for_Psychologists

Psychologist's Prescribing: A Threat or a Promise?: Why Do Psychologists Want to Prescribe? http://www.medscape.com/viewarticle/723997_2

Silva, Alex Sandro T. Psicólogos prescrevem remédios desde a década de 1990. Brasil Medicina, 2010 https://psicologoclinico.com.br/farmacologia-e-psicofarmacologia-psicologos-americanos-prescrevem-remedios-desde-decada-de-1990/

Jane Fonda: O terceiro ato da vida

Jane Fonda: transcript 

 Houve muitas revoluções durante o século passado, mas talvez nenhuma tão significativa como a revolução da longevidade. Hoje estamos a viver, em média, mais 34 anos do que os nossos bisavós. Pensem nisso. Trata-se de uma segunda idade adulta completa que foi adicionada ao nosso tempo de vida. E contudo, na sua maior parte, a nossa cultura não chegou a um consenso sobre o que isto significa. Ainda estamos a viver com o antigo paradigma da idade como um arco. Essa é a metáfora, a velha metáfora. Nascemos, temos o pico da meia-idade e declinamos até à decrepitude. (Risos) A idade como patologia. 

 00:42 Mas muitas pessoas hoje — filósofos, artistas, médicos, cientistas — estão a olhar de uma nova maneira para aquilo a que chamo o terceiro ato, as três últimas décadas de vida. Apercebem-se de que, na verdade, é uma fase da vida em desenvolvimento com o seu significado, tão diferente da meia-idade como a adolescência o é da infância. E estão a perguntar — todos nós devíamos estar a perguntar — como é que usamos este tempo? Como é que o vivemos com êxito? Qual é a nova metáfora apropriada ao envelhecimento? 

 01:17 Passei o último ano a pesquisar e a escrever sobre este assunto. E vim a descobrir que uma metáfora mais apropriada para o envelhecimento é uma escada, a ascensão para um nível superior do espírito humano, conduzindo-nos à sabedoria, à completude e à autenticidade. A idade de forma alguma como patologia; a idade como potencial. E sabem que mais? Este potencial não é para uns poucos sortudos. Acontece que a maioria das pessoas, acima dos 50 anos, sente-se melhor, com menos "stress", são menos hostis, menos ansiosas. Temos tendência a ver pontos em comum, mais do que diferenças. Alguns dos estudos dizem mesmo que somos mais felizes. 

 02:00 Não era isto o que eu esperava, asseguro-vos. Venho de uma longa linha de deprimidos. À medida que me aproximava dos 50 anos, quando acordava de manhã os meus primeiros seis pensamentos eram negativos. E assustei-me. Pensei: "Oh, meu Deus! Vou tornar-me numa velha excêntrica." Mas agora que estou em cheio no meio do meu terceiro ato apercebo-me de que estou mais feliz do que nunca. Tenho uma sensação tão poderosa de bem-estar. E descobri que, quando estamos dentro da velhice, ao contrário do que acontece quando a olhamos de fora, o medo diminui. Percebemos que ainda somos nós próprios, talvez ainda mais. Picasso disse um dia: "Levamos muito tempo a tornar-nos jovens." 

 02:45 (Risos) 

 02:47 Não quero romancear o envelhecimento. Obviamente, não há garantias de que possa ser uma época de fruição e crescimento. Em parte é uma questão de sorte. Parte, obviamente, é genética. Um terço é, de facto, genética. E não há muito que possamos fazer a esse respeito. Mas isso significa que, quanto a dois terços do nosso desempenho no terceiro ato, podemos fazer alguma coisa. Vamos examinar o que podemos fazer para tornarmos estes anos adicionais num verdadeiro sucesso e para os usarmos para fazer a diferença. 

 03:19 Agora, permitam-me que diga algo acerca da escada, que pode parecer uma metáfora estranha para seniores dado o facto de muitos seniores verem nas escadas um problema. (Risos) Eu incluída. Como devem saber, o mundo inteiro funciona de acordo com uma lei universal: a entropia, a segunda lei da termodinâmica. Entropia significa que tudo no mundo, tudo, está num estado de declínio e decadência, o arco. Só existe uma exceção a esta lei universal, que é o espírito humano, que pode continuar a evoluir para níveis superiores — a escada — trazendo-nos para o sentido do todo, a autenticidade e a sabedoria. 

 04:04 E aqui está um exemplo do que quero dizer. Esta ascensão para um nível superior pode acontecer mesmo perante problemas físicos extremos. Há cerca de três anos, li um artigo no New York Times. Era sobre um homem chamado Neil Selinger — 57 anos, advogado reformado — que se juntara ao grupo de escritores da Universidade de Sarah Lawrence onde encontrou a sua voz como escritor. Dois anos mais tarde, foi-lhe diagnosticada esclerose lateral amiotrófica (ELA), mais conhecida como doença de Lou Gehrig. É uma doença terrível. Fatal. Deteriora o corpo, mas a mente mantém-se intacta. Neste artigo, Mr. Selinger escrevia o seguinte para descrever o que lhe estava a acontecer. E passo a citar: "Enquanto os meus músculos enfraqueciam, "a minha escrita tornava-se mais forte. "Enquanto lentamente perdia a fala, "ganhava a minha voz. "Enquanto diminuía, crescia. "Enquanto perdia tanto, "finalmente começava a encontrar-me." Para mim, Neil Selinger incorpora a subida das escadas no seu terceiro ato. 

 05:15 Agora, todos nós nascemos com espírito, todos nós, mas às vezes ele fica soterrado sob os desafios da vida, a violência, o abuso, a negligência. Talvez os nossos pais sofressem de depressão. Talvez eles não fossem capazes de nos amar independentemente da forma como atuássemos no mundo. Talvez ainda soframos de uma dor psíquica, de uma ferida. Talvez sintamos que muitas das nossas relações não tiveram uma conclusão. E portanto podemos sentir-nos inacabados. Talvez a tarefa do terceiro ato seja terminarmos a tarefa de nos acabarmos a nós próprios. 

 05:53 Para mim, começou quando me aproximava do meu terceiro acto, do meu sexagésimo aniversário. Como deveria vivê-lo? O que deveria alcançar neste ato final? E percebi que, para saber para onde ia, tinha que saber onde tinha estado. Portanto, recuei e estudei os meus dois primeiros atos, tentando ver quem eu era então, quem eu era realmente, não quem os meus pais ou outras pessoas me diziam que era, ou tratavam como se fosse. Mas quem era eu? Quem eram os meus pais, não como pais, mas como pessoas? Quem eram os meus avós? Como é que eles trataram os meus pais? Este tipo de coisas. 

 06:37 Descobri uns anos mais tarde que este processo pelo qual tinha passado é denominado pelos psicólogos "fazer uma revisão de vida." E dizem que pode dar novo significado e claridade e significado à vida de uma pessoa. Podem descobrir, como eu fiz, que muitas coisas de que se julgavam culpadas, muitas coisas que costumavam pensar sobre vós mesmas, na realidade não tinham nada a ver convosco. Não foi culpa vossa, está tudo bem convosco. E podem voltar atrás e perdoá-los e perdoarem-se a si próprias. Somos capazes de nos libertar a nós próprias do nosso passado. Podemos trabalhar para mudar a nossa relação com o nosso passado. 

 07:23 Quando eu estava a escrever sobre isto, encontrei um livro chamado "Em Busca de Sentido" de Viktor Frankl. Viktor Frankl era um psiquiatra alemão que tinha passado cinco anos num campo de concentração nazi. E, enquanto estava no campo, ele escreveu que, se alguma vez fossem libertados, ele saberia dizer quais as pessoas que estariam bem e quais não estariam. E escreveu isto: "Tudo o que temos na vida pode ser-nos tirado "exceto uma coisa, "a nossa liberdade de escolhermos "como responderemos à situação. "É isso que determina "a qualidade da vida que vivemos, "não se fomos ricos ou pobres, "famosos ou desconhecidos, "saudáveis ou sofredores. "O que determina a nossa qualidade de vida "é como nos relacionamos com estas realidades, "que tipo de significado lhes atribuímos, "que tipo de atitude associamos a elas, "que estado de espírito permitimos que despoletem." 

 08:27 Talvez o propósito central do terceiro ato seja voltar atrás e tentar, se apropriado, mudar a nossa relação com o passado. Acontece que a investigação cognitiva mostra que, quando somos capazes de fazer isto, ocorre uma manifestação neurológica, criam-se caminhos neurais no cérebro. Se tivermos, ao longo do tempo, reagido negativamente a acontecimentos e pessoas do passado, estabelecem-se caminhos neurais por meio de sinais químicos e elétricos que são enviados através do cérebro. E, com o passar do tempo, estes caminhos neurais tornam-se definitivos, tornam-se a norma, mesmo que isso nos seja prejudicial porque nos causa "stress" e ansiedade. 

 09:11 Contudo, se pudermos voltar atrás e alterar a nossa relação, rever a nossa relação com pessoas e acontecimentos do passado, os caminhos neurais podem mudar. E se pudermos manter os sentimentos mais positivos em relação ao passado, isso torna-se a nova norma. É como reajustar um termostato. Não é ter experiências que nos torna sábios, é refletir sobre as experiências que tivemos que nos torna sábios e isso ajuda-nos a tornarmo-nos completos, traz sabedoria e autenticidade. Ajuda-nos a tornarmo-nos naquilo que podíamos ter sido. 

 09:52 Nós, mulheres, à partida somos completas, não é verdade? Enquanto raparigas, à partida somos arrojadas. "Sim, quem diz?" Temos poder de ação. Somos os sujeitos das nossas próprias vidas. Mas, muito frequentemente, muitas de nós, se não a maioria, quando chegamos à puberdade começamos a preocupar-nos em ser aceites, em ser populares. E tornamo-nos os sujeitos e objetos das vidas de outras pessoas. Mas agora, no nosso terceiro ato, pode ser possível completarmos o circulo, voltando ao ponto de partida e saber isso pela primeira vez. E se pudermos fazer isso, não será apenas por nós próprias. As mulheres mais velhas são o maior grupo demográfico do mundo. Se pudermos voltar atrás e redefinir-nos e tornar-nos completas, isso criará uma mudança cultural no mundo, e dará um exemplo às gerações mais jovens de forma a que possam repensar o seu próprio tempo de vida. 


  TED

Jane Fonda: 
O terceiro ato da vida 

OLD

 

 

  Aspectos psicossociais do envelhecimento e longevidade 
Nesta geração, 30 anos extras foram adicionados à nossa expectativa de vida -- e esses anos não são apenas uma nota de rodapé ou uma patologia. Em TEDxWomen, Jane Fonda questiona como podemos considerar esta nova fase de nossas vidas.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Estilo de vida e longevidade

壽 Shòu (長 壽 chángshòu) 
Vida (Longa Vida)

Recentes estudos sobre a longevidade apontam genes e o estilo de vida dos indivíduos de algumas regiões do mundo como merecedores de tal determinação. 

A descoberta de que alguns genes, tipo o SIR2 (SIRT), o CD97 (Matusalém) e outros que controlam as defesas do corpo, podem ser capazes de deter doenças típicas da terceira idade (câncer, diabetes e mesmo doenças neurodegenerativas) estendendo a duração da vida humana, trazem novas luzes à distinção entre o envelhecimento normal e patológico. O que, por sua vez não invalida a hipótese evolutiva da parada de crescimento ou senescência programada por genes. O desgaste da maquinaria de reprodução / reparação celular com diversas funções alteradas já identificadas tipo, perda da capacidade reativa, predomínio do dano auto-imune, enfraquecimento da imunidade humoral, acúmulos de subprodutos metabólicos tóxicos, etc. (Aslan)

Contudo nada foge ao princípio termodinâmico da degradação da energia / aumento da entropia. Jacques Monod (1910-1976), Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina de 1965, pondera que os seres vivos, apesar da perfeição conservadora da maquinaria que garante a fidelidade da tradução do código genético para construção do corpo celular, não escapam a essa lei. Segundo ele, parafraseando Leslie E. Orgel (1927-2007), a senescência e a morte dos organismos pluricelulares se explicam, ao menos em parte, pela acumulação de erros acidentais de tradução que, alterando sobretudo alguns componentes responsáveis pela fidelidade da própria tradução, aumentam a freqüência desses erros que, pouco a pouco e inexoravelmente degradam a estrutura desses organismos. (Monod, J. O acaso e a necessidade, p.128)

Para Sinclair e Guarente, autores do citado estudo sobre o SIR2, “restringir a ingestão de calorias no animal é a intervenção prolongadora da vida mais famosa que se conhece. Descoberta há mais de 70 anos, ainda é a única comprovadamente eficaz. O regime de restrição calórica normalmente consiste em reduzir o consumo alimentar em 30% a 40% ao considerado normal para espécie. Animais que seguem essa dieta, desde ratos e camundongos até cães e possivelmente primatas além de viverem mais, tem muito mais saúde durante sua vida prolongada”. A condição estressora da restrição calórica, segundo eles, é capaz de induzir uma reação defensiva para aumentar as chances de sobrevivência o que nos mamíferos inclui mudanças na defesa celular, no reparo, na produção de energia e na ativação da morte programada de células (apoptose - uma das defesas contra células mutantes).

Por outro lado muitos não têm como escolher aonde viver, ou as condições de vida de cada região do planeta que tem de enfrentar, e mais que isso como veremos, muito menos podem escolher as "zonas azuis" (ver vídeo) onde a natureza foi generosa ou os homem aprenderam a viver bem. De qualquer sorte dependemos do estilo de vida que construímos (?) e/ou temos de compreender para transformar. O conceito de estilo de vida confunde-se com o de cultura tal como definido de diversas formas pela antropologia, a antiga ciência dos costumes. No ponto de vista da sociologia, uma das primeiras aproximações do tema com os conceitos de way of life – modo de vida, algo equivalente ao life style - estilo de vida dos etnólogos, foram os trabalhos do antropólogo Lewis Morgan (1877) retomados pelos teóricos criadores da economia política, Marx e Engels, em diversos escritos entre os quais: "Origens da família da propriedade privada e do Estado" (Engels), textos sobre formações sociais pré-capitalistas e "O Capital" (Marx) que, como observa Almeida de certo modo anteciparam o uso do conceito de cultura.

Sem querer desacreditar na chance do "animal político" de Aristóteles modificar o mundo nem crucificar os behavioristas por afirmar que ...o grupo exerce um controle ético sobre cada um de seus membros através, principalmente, de seu poder de reforçar ou punir... volto a citar o mal compreendido Skinner em seu mais escandaloso título "O mito da liberdade":

O homem não se modificou porque o observamos, falamos sobre ele e o analisamos cientificamente. Suas realizações na ciência, no governo, na religião, na arte e na literatura permanecem como sempre foram, para serem admiradas como admiramos uma tempestade no mar ou a folhagem do outono, ou o pico de uma montanha, bem distantes de suas origens e intocadas por uma análise científica. O que se modifica é nossa oportunidade de fazer algo em relação ao tema de uma teoria. A análise de Newton da luz no arco-íris foi um passo em direção ao laser. Skinner, 1983 p.158

Sabe-se também por estudos epidemiológicos, em especial o “Framingham Heart Study” (1948), que alguns poucos e específicos padrões individuais e sociais de estilo de vida constituem os principais fatores de risco comportamentais envolvidos nas doenças crônicas e incapacidades sérias. Observe-se que doenças crônicas como as cardiovasculares e neoplasias, junto com os acidentes e violências estão entre as principais causas de morte nas sociedades do mundo atual, desenvolvidas ou não. Observe-se também que é inquestionável, como bem mostrou a epidemiologia social, a associação entre baixo nível sócio-econômico das regiões e os níveis de saúde da população residente. Contudo o intrigante são as diferenças entre níveis de saúde de regiões economicamente equivalentes.

Estudos demográficos e epidemiológicos sobre a expectativa de vida, sejam de acompanhamento ou ecológicos, sobre as populações de longevos, estabeleceram parâmetros sobre essa determinação, especialmente o conhecimento de que se concentram em algumas regiões do mundo: a ilha grega de Icaria; a ilha japonesa de Okinawa; a Sardenha, na Itália; Vilcambamba, na região sul do Equador; o Vale de Hunza, no Paquistão e uma comunidade de Adventistas da Califórnia (EUA).

Recentes estudos (Souza, Evans) sobre a longevidade apontaram alguns hábitos especialmente nutricionais: muito azeite de oliva, frutas e vegetais, além de pouquíssimas quantidades de alimentos processados ou industrializados (Ikaria) ou grãos, peixes e vegetais (e tofu) em Okinawa. De modo geral o predomínio de uma alimentação a base de vegetais (crus) bebidas (vinho rico em polifenóis) moderadas, intenso consumo de chás. Além de atividade física constante e, sobretudo baixos níveis de estresse e ansiedade. Alguns autores (Mann, Braden), inclusive sugerem que a longevidade e a qualidade de vida aumentam quando existe cooperação na procura e na partilha de comida, água e outros recursos.

Dan Buettner (ver vídeo) e sua equipe estudam as "Zonas Azuis" do mundo, comunidades cujos idosos vivem com disposição e vigor até idades estabelecedoras de recordes.

Uma das coisas que se pode guardar das colocações de Buettner no vídeo que assistimos, é que vale a pena viver aprendendo a viver melhor. Um estudo dos bons hábitos, da medicina comportamental não pode deixar de considerar os planos aparentemente opostos, criados por disciplinas isoladas da saúde em seu aspecto mental x orgânico ou individual x coletivo. Fundamentando-se como uma crítica à noção etnocêntrica de civilização a partir do estudo racional dos costumes relacionados da saúde e longevidade. A medicina comportamental, essa aplicação da psicologia que busca o entendimento da conservação da saúde, tem como dificuldade a superação das referidas dicotomias, e como ela traz em seus princípios norteadores, é a aprendizagem e modificação das contingências (determinantes do processo saúde-doença) a solução, seja no plano individual ou coletivo. Dan Buettner (ver vídeo) nos chama atenção para os aspectos psicossociais do envelhecimento, a resultante de características da nossa individualidade e relações sociais que construímos dentro dos padrões culturais que aprendemos. Um importante fator, assinala ele na população de Okinawa é a motivação conhecida em japonês ikigai (y-KY-gnaay, 生甲斐) que pode ser traduzido como "uma razão para se levantar de manhã".

Naturalmente que o desenvolvimento de uma qualidade psíquica ou re-organização de um estilo de vida, não é uma coisa que se adquire sem esforço ou imediatamente. Concordando ainda Buettner, é uma conquista cotidiana de toda uma vida. Interessante também, observarmos na cultura oriental a “hierarquia” que reconhecem nas individualidades, para Confúcio (551 a.C.-479 a.C.) a diferença entre o “homem vulgar” e o “homem de bem”; para Huang-di, o imperador mítico que governou a China por volta de 3.000 a.C e nos deixou o legado do cânone da medicina tradicional chinesa conhecido por Nei Jing (内經), distingue-se entre as pessoas o "Homem sábio e bom", o Sábio e o “Homem supremo” ou perfeito. (um estudo dos respectivos ideogramas poderá nos ser ainda mais esclarecedor)

Nas reflexões que nos deixaram, equivalentes talvez às distinções entre o "ímpio" e "sábio" aos olhos do Rei Salomão (900 a.C.), a distinção que apresentam entre seu modo de ser e comportamento, se caracterizam pela disposição para enfrentar as adversidades (os oito ventos, a miséria, "torvelinho das palavras" etc.) o que se reflete, como pode ser visto nas citações abaixo referidas, na saúde e longevidade.

“O “homem de bem” pode não apenas cair na miséria, mas a enfrentará com coragem. É o “homem vulgar” que em semelhante situação, deixa-se levar aos piores excessos. (Confúcio, Analectos, XV, 1)

Lê-se no Nei Jing (内經)

"Homem sábio e bom"
..."Aqueles que podem preservar sua saúde ao ponto de ser um "Homem sábio e bom". Podem dominar e aplicar a técnica de preservar a saúde de acordo com as variações do céu e da terra, tais como com as diferentes localizações do sol, os quartos crescente e o minguante da lua, a distribuição das estrelas, a contradição mútua do Yin e do Yang e a alternância das quatro estações. Eles dominavam e praticavam as formas de preservar a saúde, procuravam registrar as formas de preservar a saúde nos tempos antigos, a fim de que também pudessem prolongar suas vidas ao máximo".

"Sábio"
"Depois, vinham as pessoas capazes de conservar sua saúde até o nível de virar "Sábio". Elas viviam tranquilas e confortavelmente no ambiente natural do universo, seguiam as regras dos oito ventos (diversos ventos de todas as direções) e podiam evitar ser feridas por eles. Elas regulavam seu comer, seu beber e a vida diária num estilo moderado, quando viviam junto às pessoas comuns. Seus temperamentos eram estáveis e calmos sem indignação e flutuação de humor. Na aparência externa, elas não se afastavam da realidade de sua vida diária, trabalhavam na administração com as roupas próprias da administração, como as outras, mas lidavam com as coisas de forma diferente das pessoas comuns. Nunca faziam trabalho físico excessivo e nem se engajavam em deliberações excessivas que causassem preocupação, mas sempre conservavam sua mente bem disposta, e se contentavam com suas próprias circunstâncias. Precisamente por causa disso, elas podiam cultivar a si próprias a fim de ter corpos fortes, e preservar seus espíritos da dissipação, e por isso, suas vidas podiam ser prolongadas até os cem anos de idade.

"homem supremo"/ perfeito
"Nos idos da metade dos tempos antigos, algumas pessoas conseguiam preservar a saúde atingindo o nível de "homem supremo". Elas estudavam e praticavam a forma de, com todo seu coração, preservar a saúde, com um caráter moral puro e honesto. Elas empregavam seu comportamento e mente para se adaptar à lei de períodos de crescimento e decadência do Yin e do Yang e a subseqüente mudança de clima das estações. Elas eram capazes de manter sua energia primordial de forma concentrada liberando a si mesmas do torvelinho das palavras a fim de poderem conservar seu físico forte, seu espírito abundante, e aguçar olhos e ouvidos. Elas empreendiam viagens extensas a fim de ouvir e ver coisas em locais distantes. Este tipo de pessoas certamente podia prolongar seu tempo de vida. Seu nível de cultivo da saúde tinha quase atingido o estágio do "homem perfeito".

Nei Jing (内經) Cap. 1 Sobre a preservação da energia saudável nos humanos nos tempos antigos (Shanggu Tanzhen Lun).

A pergunta que ficou depois deste rápido passeio sobre as conquistas modernas da ciência, etnografias de povos longevos e concepções de uma antiga medicina tradicional é aonde encontraremos a resposta? na lógica científica ou nas reflexões éticas para o sonho de uma longa vida sã?

Especialmente no paradoxo que nos apresenta o Nei Jing - ter sabedoria para preservar a saúde é ter saúde para se obter a sabedoria - só há entendimento possível desta máxima, se considerarmos que, para os chineses, toda a realidade física ou mental, não é outra coisa senão a energia vital (qi 氣), e tal como nos resume Cheng (2008) o chi ou qi (氣), além da vitalidade do corpo estudado pela ciência médica, está no cerne do pensamento estético como também da ética.

Diferentemente dos ocidentais, para os chineses desta dinastia, não há uma cisão entre o raciocínio lógico e a conduta ética, a harmonia que existe no universo tem que existir nas relações humanas se quisermos gozar da saúde & sabedoria. A medicina ocidental perdeu esta possibilidade de intervenção na saúde associada ao bem estar completo (inclusive social) ao abandonar o conceito de energia vital (até hoje mantido por naturalistas e homeopatas), acreditando ser suficiente as explicações da bioquímica, iniciada com a síntese dos compostos orgânicos por Friedrich Wöhler (1800-1882) e/ou explicada pela bacteriologia de Louis Pasteur (1822-1895).

Referências

Sinclair David A.; Guarente, Lenny. Desvendando os segredos dos genes da longevidade. Scientific American Brasil, ano 4 n 47 (40-47), Abril de 2006

Monod, Jacques. O acaso e a necessidade, ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna. Petrópolis: Vozes, 1972

Aslan, A. Os mistérios do envelhecer. O Correio ano 10 n 12 RJ, FGV, dezembro de 1982

Almeida, Naomar. Modelos de determinação social das doenças crônicas não-transmissíveis, Ciência & Saúde Coletiva, v.9 n.4 (865-884), RJ, ABRASCO, 2004 PDF

Skinner, B.F. Ciência e comportamento humano.SP: Martins Fontes, 2003

Skinner, B.F. O mito da liberdade. SP: Summuns, 1983

Souza, Sergio. As pessoas mais velhas do mundo dão dicas para uma vida longa. http://hypescience.com/25085-dicas-para-uma-vida-longa/ 6.12.2009

Evans, Martin Tips for a longer life according to the world's oldest people,
http://www.telegraph.co.uk/news/6652291/Tips-for-a-longer-life-according-to-the-worlds-oldest-people.html 26 Nov 2009

Mann, John David. A humanidade numa encruzilhada. Uma conversa com Gregg Braden, autor de The Spontaneous Healing of Belief e de The Isaiah Effect http://www.greggbraden.com/wp-content/uploads/2008/09/greggbraden-e1.pdf

Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang, compilação Bing Wang. – Edição bilíngue). São Paulo: Editora Ícone. 2001.

Confúcio (551-479 a.C)Diálogos de Confúcio. SP: Ibrasa, 1983

Cheng, Anne. História do pensamento chinês. Petrópolis: Vozes, 2008

VEJA TAMBÉM

Framingham Heart Study: http://www.framinghamheartstudy.org/

Okinawa Centenarian Study:  https://doi.org/10.1007/978-981-287-080-3_74-1